Termômetro do mercado acende alerta para juros altos, mas calmaria no exterior dá fôlego aos investimentos
Previsão de inflação subindo para os próximos anos preocupa analistas, que sugerem cuidado com a Bolsa e foco em investimentos mais seguros
O Relatório Focus desta segunda-feira (15), que reúne as apostas dos grandes bancos para a economia, trouxe um sinal de alerta: o pessimismo começou a atingir os planos mais longos do mercado. As previsões de inflação e de juros para 2028 subiram, mostrando que o investidor está com medo de que a alta de preços demore a passar. O diretor da Pilar Capital, Cassio Viana de Jesus, explica que isso mexe com prazos que deveriam estar protegidos dos problemas de hoje. "Esses ajustes pedem atenção do investidor, ao reforçar a tese de juros altos por mais tempo, o que mantém a renda fixa competitiva e exige escolher muito bem onde colocar o dinheiro na Bolsa", avalia.
Apesar da preocupação para 2028, o mercado financeiro acredita que ainda é cedo para falar em um descontrole total, já que as previsões para 2029 continuam calmas. No entanto, o bolso do brasileiro ainda deve sofrer no curto prazo. A previsão da inflação para 2026 já passa dos 5,30%, impulsionada pelos gastos públicos. O executivo da Multiplike, Peterson Rizzo, destaca que esse movimento foi "muito influenciado pelo incentivo do governo em ano eleitoral". Mesmo assim, ele acalma quem investe: "O relatório não muda a estratégia, ele só reforça que os juros vão seguir altos por mais tempo. Esse cenário ajuda quem investe em renda fixa [como Tesouro Direto ou CDBs] e títulos amarrados à inflação".
Se a situação em casa preocupa, o cenário lá fora trouxe um alívio que salvou o dia. As bolsas de valores e o dólar ignoraram o relatório pessimista e subiram graças aos sinais de paz e novos acordos entre Estados Unidos e Irã. Essa calmaria internacional fez o dólar cair para a casa dos R$ 5,06 e deu fôlego para a Bolsa brasileira. Peterson Rizzo explica que o termômetro do mercado não pesou tanto no dia a dia do investidor comum, servindo mais para tentar adivinhar o próximo passo do Banco Central, que deve cortar a taxa de juros (Selic) em 0,25% nesta semana. "A alta veio muito mais do alívio lá fora do que do relatório", pontua.
Com esse cenário de altos e baixos, a ordem dos especialistas para quem cuida do próprio dinheiro é ter cautela. Juros altos por muito tempo castigam empresas que dependem de empréstimos, aquelas que vendem produtos parcelados ou empresas de tecnologia que precisam de muito dinheiro para crescer. Por outro lado, o momento é ótimo para quem prefere não correr riscos. Segundo Cassio Viana de Jesus, o investidor deve focar em "investimentos de renda fixa, empresas que têm muito dinheiro em caixa, marcas que conseguem repassar o aumento de custos para os preços e empresas que ganham em dólar".
A grande charada para os próximos meses será entender o que é um problema passageiro e o que veio para ficar. Enquanto a crise do petróleo e o dólar dão uma trégua lá fora, as contas do governo brasileiro continuam sendo o principal motivo de insônia para o mercado. "Parte da pressão vem de fora e pode melhorar, como os acordos internacionais que baixam o preço do combustível. Mas a outra parte é nossa: a bagunça nas contas públicas e o ano de eleição. É esse problema de casa que explica o medo do mercado para o futuro e que não vai sumir com a paz no exterior", conclui Jesus.