Tarifaço externo ameaça elevar custos da construção e travar novos investimentos no Brasil

Especialistas alertam para aumento nas despesas de obras de alto padrão, risco de desaceleração da economia e adiamento de projetos a partir de 2027

Tarifaço externo ameaça elevar custos da construção. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Tarifaço externo ameaça elevar custos da construção. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

As novas barreiras comerciais impostas no exterior, conhecidas como "tarifaço", devem gerar impactos na economia brasileira que vão além das empresas exportadoras. Setores voltados ao mercado interno, como a construção civil, e o planejamento de longo prazo de indústrias e companhias de tecnologia já avaliam reflexos diretos em custos, faturamento e decisões de investimento para 2027. No setor imobiliário, o efeito mais visível decorre da oscilação do dólar e do encarecimento de materiais tecnológicos e de acabamento. Segundo Alex Sales, fundador da Alumbra Empreendimentos, o segmento sentirá os desdobramentos mesmo sem depender do comércio exterior. "Se as tarifas persistirem em 2027, trabalhamos com uma faixa de 1% a 2% adicionais no custo da construção, sobretudo em empreendimentos de alto padrão, que têm maior exposição a equipamentos, automação, climatização, metais e acabamentos importados", explica o executivo.

Sales pondera que a dinâmica dos preços será mista. Produtos como aço e alumínio que deixarem de entrar no mercado norte-americano podem inundar o mercado nacional, barateando insumos básicos. Em contrapartida, itens sofisticados ficarão mais caros pela via cambial. "Para uma obra de R$ 100 milhões, 1% adicional já representa R$ 1 milhão de custo. Por isso, o principal efeito para as construtoras estará na necessidade de antecipar compras, renegociar fornecedores e revisar orçamentos antes de decidir novos lançamentos", aponta.

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O freio nos aportes financeiros e a cautela com o futuro também preocupam analistas de mercado. Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, destaca que o impacto mais profundo não é a perda imediata de faturamento, mas o congelamento do crescimento estrutural. "A consequência mais duradoura do tarifaço pode estar nos projetos que deixam de sair do papel. Perder uma venda reduz a receita atual. Adiar uma fábrica, uma tecnologia ou a entrada em outro país compromete a capacidade de crescer nos próximos anos", afirma Patrus.

Nas estimativas da Bossa Invest, caso as medidas tarifárias continuem em vigor, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro poderá sofrer uma perda de 0,1 a 0,3 ponto percentual em 2027. A resposta do mercado de trabalho deve ocorrer de forma gradual, iniciando pelo fechamento de novas vagas e evoluindo para cortes de funcionários caso a retração persista.

Patrus ressalta ainda que a pressão sobre o dólar limita o alívio na taxa básica de juros (Selic), exigindo atenção à inflação de serviços e às expectativas do mercado. Por outro lado, o cenário de reorganização forçada abre portas para a inovação. "Para o venture capital, essa reorganização abre espaço para soluções que ajudem empresas a produzir melhor e alcançar novos compradores. Tecnologia para logística, pagamentos internacionais, inteligência comercial e automação pode reduzir o custo dessa transição", conclui o executivo.

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