Tarifaço externo ameaça elevar custos da construção e travar novos investimentos no Brasil
Especialistas alertam para aumento nas despesas de obras de alto padrão, risco de desaceleração da economia e adiamento de projetos a partir de 2027
As novas barreiras comerciais impostas no exterior, conhecidas como "tarifaço", devem gerar impactos na economia brasileira que vão além das empresas exportadoras. Setores voltados ao mercado interno, como a construção civil, e o planejamento de longo prazo de indústrias e companhias de tecnologia já avaliam reflexos diretos em custos, faturamento e decisões de investimento para 2027. No setor imobiliário, o efeito mais visível decorre da oscilação do dólar e do encarecimento de materiais tecnológicos e de acabamento. Segundo Alex Sales, fundador da Alumbra Empreendimentos, o segmento sentirá os desdobramentos mesmo sem depender do comércio exterior. "Se as tarifas persistirem em 2027, trabalhamos com uma faixa de 1% a 2% adicionais no custo da construção, sobretudo em empreendimentos de alto padrão, que têm maior exposição a equipamentos, automação, climatização, metais e acabamentos importados", explica o executivo.
Sales pondera que a dinâmica dos preços será mista. Produtos como aço e alumínio que deixarem de entrar no mercado norte-americano podem inundar o mercado nacional, barateando insumos básicos. Em contrapartida, itens sofisticados ficarão mais caros pela via cambial. "Para uma obra de R$ 100 milhões, 1% adicional já representa R$ 1 milhão de custo. Por isso, o principal efeito para as construtoras estará na necessidade de antecipar compras, renegociar fornecedores e revisar orçamentos antes de decidir novos lançamentos", aponta.
O freio nos aportes financeiros e a cautela com o futuro também preocupam analistas de mercado. Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, destaca que o impacto mais profundo não é a perda imediata de faturamento, mas o congelamento do crescimento estrutural. "A consequência mais duradoura do tarifaço pode estar nos projetos que deixam de sair do papel. Perder uma venda reduz a receita atual. Adiar uma fábrica, uma tecnologia ou a entrada em outro país compromete a capacidade de crescer nos próximos anos", afirma Patrus.
Nas estimativas da Bossa Invest, caso as medidas tarifárias continuem em vigor, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro poderá sofrer uma perda de 0,1 a 0,3 ponto percentual em 2027. A resposta do mercado de trabalho deve ocorrer de forma gradual, iniciando pelo fechamento de novas vagas e evoluindo para cortes de funcionários caso a retração persista.
Patrus ressalta ainda que a pressão sobre o dólar limita o alívio na taxa básica de juros (Selic), exigindo atenção à inflação de serviços e às expectativas do mercado. Por outro lado, o cenário de reorganização forçada abre portas para a inovação. "Para o venture capital, essa reorganização abre espaço para soluções que ajudem empresas a produzir melhor e alcançar novos compradores. Tecnologia para logística, pagamentos internacionais, inteligência comercial e automação pode reduzir o custo dessa transição", conclui o executivo.

:background_color(white)/hotmart/product_pictures/175f6f04-de3b-4095-a72d-5b7e60d6292f/9100B0E2DF654206BA39DCB37CB51AE0.png?w=920)