Selic cai para 14%, mas mercado vê espaço limitado para novos cortes diante de Ormuz, fiscal e eleições

O Banco Central deu início ao alívio monetário com uma redução de 0,25 ponto percentual, contudo, riscos geopolíticos no Oriente Médio, incertezas fiscais domésticas e barreiras comerciais globais limitam um ciclo de queda acelerado

O Banco Central deu início ao alívio monetário com uma redução de 0,25 ponto percentual. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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Poder da Capital

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central oficializou a redução da taxa básica de juros, a Selic, de 14,25% para 14% ao ano. O movimento de 0,25 ponto percentual confirma o início da flexibilização monetária em um momento no qual a economia brasileira dá sinais mais nítidos de desaceleração e desinflação, exemplificados pelo avanço de apenas 0,06% do IPCA-15 em julho e pela retração de 1,8% na produção industrial em junho. No entanto, analistas e executivos do mercado financeiro alertam que o espaço para novos cortes de magnitude relevante permanece altamente restrito.

Embora a decisão traga um alívio marginal para o custo do crédito, o diagnóstico de especialistas é que o aperto monetário continua elevado e os desdobramentos de curto prazo para famílias e empresas alavancadas serão graduais. Além das incertezas fiscais internas e das projeções de inflação acima da meta, o cenário internacional adiciona camadas de volatilidade, desde o risco geopolítico no Estreito de Ormuz até a imposição de novas barreiras tarifárias norte-americanas.

Apesar da sinalização positiva emitida pela autoridade monetária, a avaliação no setor produtivo é que a flexibilização ainda não altera substancialmente as condições financeiras vigentes. O custo do capital continuará elevado, mantendo critérios rigorosos para concessão de crédito e pressionando o fluxo de caixa corporativo.

Para o CEO do Grupo Intra, Valdir Piran Jr, o corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14%, confirma a continuidade do processo de flexibilização monetária, mas não representa uma mudança para um ciclo acelerado de queda dos juros. "A inflação apresentou melhora na margem e alguns custos industriais perderam força. Ainda assim, o mercado de trabalho permanece resistente, as expectativas continuam acima da meta e o quadro fiscal mantém elevado o prêmio de risco. A decisão indica que a economia entrou em uma fase de desaceleração gradual, e não de retração. O Banco Central começa a aliviar o grau de restrição, mas preserva juros reais elevados para assegurar que a desinflação seja sustentável. O ponto mais importante agora será o tom do comunicado e a liberdade que o Copom manterá para interromper o ciclo nas próximas reuniões", afirma.

Do mesmo modo, segundo o diretor da Bossa Invest, Antônio Patrus, o setor de venture capital monitora com cautela os desdobramentos globais. "Esse processo, porém, dependerá muito mais dos próximos meses do que desta reunião. Oriente Médio e petróleo podem reacender a inflação global, enquanto o tarifaço amplia incertezas comerciais e cambiais. Se esses choques pressionarem o real e os preços, o Copom terá menos liberdade para acelerar. Para o venture capital, portanto, o cenário melhora não apenas se a Selic cair, mas se o mercado acreditar que ela poderá continuar caindo de maneira sustentável", pontua.

As estimativas do mercado indicam que a taxa Selic deve encerrar o ano de 2026 no patamar entre 13,75% e 14,00%. Novos ajustes não devem ser encarados como um processo automático, exigindo uma combinação contínua de fatores fiscais e monetários favoráveis.