Selic cai, mas crédito caro deve manter empresas pressionadas até 2027

Alívio é marginal e impacto nos balanços corporativos só deve aparecer com força em 2027, dizem especialistas

Crédito caro deve manter empresas pressionadas até 2027. Foto: José Cruz/Agência Brasil
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Victor Gomes

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, em uma decisão que tem "mais cara de calibragem do que de afrouxamento", na avaliação de especialistas. Apesar do corte, o juro real permanece alto e o crédito segue caro, o que mantém a pressão sobre empresas e o consumo ao longo do segundo semestre e direciona o alívio mais substancial para 2027.

A leitura do Banco Central, que optou pela dose moderada de flexibilização, leva em conta que a inflação esperada para 2026 está em 5,30%, acima do teto da meta de 4,5%. "A aposta do Banco Central é que o juro real ainda elevado e a gordura gerada no período em que se mantiveram os juros em patamar elevado abrem espaço para essa dose sem comprometer o controle de preços", afirmou o CEO do Grupo Pilar, André Caruso, destacando que o movimento deve ser visto como "o início de uma pausa duradoura" — e não como o começo de um ciclo de flexibilização amplo.

Com a atividade econômica mostrando resiliência — como indicou o IBC-Br positivo —, o espaço para cortes adicionais é limitado. A 14,25%, o efeito sobre crédito, consumo e atividade é "marginal", e o aperto transmitido pelos efeitos defasados da política monetária ainda pesará sobre a economia no segundo semestre, cenário que já aparece nos resultados do varejo.

Para as empresas, especialmente as mais endividadas, o benefício concreto do ajuste só tende a se materializar em 2027. "O alívio mais substancial sobre os balanços das empresas, sobretudo as mais endividadas, tende a aparecer apenas em 2027", completou Caruso.

No plano externo, o preço do petróleo surge como fator decisivo para os próximos passos da política monetária. A recente queda do barril, impulsionada por uma desescalada no Oriente Médio, também foi considerada pelo Copom na avaliação prospectiva da economia. Ainda assim, o alívio é, na visão dos analistas, frágil: se o conflito reaquecer e o acordo travar, o petróleo pode voltar a subir, pressionando a inflação e forçando o Banco Central a pausar novos cortes. "A continuidade do ciclo está, hoje, refém da geopolítica, o mesmo pano de fundo que levou o Fed a manter os juros e a sinalizar cautela", observou Caruso.

Para a sócia da Finscale, Leticia Moschioni, a queda de 0,25 ponto "traz algum alívio para a economia, mas ainda não muda de forma estrutural o cenário para empresas e consumidores". Para ela, o crédito continuará caro e o consumo, contido, exigindo seletividade por parte das companhias na hora de investir. A manutenção dos juros pelo Federal Reserve também contribui para um ambiente global de capital conservador, limitando o espaço para cortes mais acelerados no Brasil.

Moschioni acrescentou que, no atual cenário, empresas interessadas em transformar serviços financeiros em nova linha de receita devem focar em estruturar bem operações de crédito, antecipação de recebíveis, contas digitais e soluções financeiras integradas ao negócio principal. A queda do petróleo pode ajudar a reduzir pressões sobre custos e inflação, mas, caso o conflito no Oriente Médio volte a escalar e eleve o preço do barril — pressionando o dólar — o Banco Central pode reduzir o ritmo dos cortes ou até pausar o ciclo.

Em resumo, o movimento do Copom aponta para um ajuste fino dentro de um patamar ainda claramente restritivo. O corte recente oferece algum alívio, porém insuficiente para alterar a percepção de que o crédito permanecerá caro e que as empresas precisarão priorizar eficiência, controle de risco e diversificação de receitas enquanto esperam alívio mais consistente em 2027.