Risco fiscal pós-eleições pode manter juros altos e levar Selic a 14% em 2027

Especialistas alertam que frustração com as contas públicas pode elevar a taxa básica em até 16,7% acima do projetado pelo Boletim Focus, encarecendo o crédito e travando investimentos

Risco fiscal pós-eleições pode manter juros altos e levar Selic a 14% em 2027. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

O otimismo recente do mercado financeiro com a queda do dólar e as previsões de redução dos juros no Brasil deve ser encarado com cautela. Embora o Boletim Focus aponte para uma taxa básica de juros (Selic) em torno de 12% ao final de 2027, uma eventual frustração fiscal após as eleições presidenciais pode levar o Banco Central a manter uma postura mais dura, empurrando a taxa para o intervalo entre 13,5% e 14% — um patamar até 16,7% superior ao consenso atual.

A avaliação é de especialistas do mercado financeiro, que chamam atenção tanto para as incertezas internas quanto para o cenário internacional mais desafiador. Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, a desvalorização do dólar frente ao real não significa necessariamente que o Brasil superou seus problemas nas contas públicas. Ele lembra que a moeda americana depende de forças globais, como a taxa de juros nos Estados Unidos e o fluxo internacional de capitais.

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"A queda da expectativa para o dólar, acompanhada da redução das projeções de juros à frente, pode criar a impressão de que o Brasil já está atravessando uma mudança estrutural de cenário. Eu teria cautela com essa interpretação. O câmbio responde não apenas à economia brasileira, mas também aos juros americanos, aos fluxos internacionais de capital e à percepção global de risco. O FMI acaba de projetar crescimento mundial de 3,1% em 2026, inferior aos 3,5% registrados em 2025, em um ambiente de pressões sobre energia e endividamento público. Isso significa que uma valorização do real pode ocorrer mesmo sem uma melhora definitiva das contas fiscais brasileiras", destaca.

Desafio 
Mesmo que a Selic caia até os 12% previstos pelo mercado, o alívio pode demorar a ser sentido no bolso da população e das empresas. A transmissão dos cortes da taxa básica para o custo final dos empréstimos esbarra nos altos spreads bancários, na exigência de garantias e na inadimplência. Thiago Secco, sócio e CFO da Friggi & Secco, lembra que a taxa média do crédito livre às famílias atingiu 61,7% ao ano em agosto, com calotes em 6%, segundo dados do Banco Central.

"O mercado está discutindo quando a Selic chegará a 12%, mas a questão mais importante é quanto dessa redução efetivamente chegará ao tomador de crédito. Em agosto, segundo o Banco Central, a taxa média do crédito livre às famílias alcançou 61,7% ao ano, enquanto a inadimplência chegou a 6%. Isso significa que, mesmo se a Selic encerrar 2027 no patamar projetado pelo Focus, o custo final dos empréstimos poderá continuar elevado por causa dos spreads, das garantias exigidas e do risco de inadimplência. O cenário externo também exige cautela: o FMI projeta crescimento global de 3,4% em 2027, mas alerta para pressões de energia e endividamento que podem manter os juros internacionais elevados", afirma.

Para ilustrar o peso de um cenário com Selic a 14% em vez de 12%, Secco calcula que um financiamento de R$ 1 milhão geraria R$ 20 mil adicionais apenas em juros em um ano caso a taxa contratada subisse dois pontos percentuais (considerando juros simples e principal constante).