Risco fiscal e inflação projetam PIB menor e juros mais altos para 2027
Especialistas alertam que descontrole nas contas públicas pode anular ganhos de investimentos e frear o crescimento econômico do país
As projeções do mercado financeiro para 2027 acenderam o sinal de alerta entre economistas e investidores. As estimativas mais recentes apontam para um crescimento econômico modesto de 1,31%, com a taxa básica de juros (Selic) inicialmente estimada em 11,75%. No entanto, se o governo não apresentar um plano consistente de ajuste fiscal, o cenário pode piorar: o Produto Interno Bruto (PIB) corre o risco de crescer entre 1% e 1,2% (uma perda de até 24% no ritmo de expansão), enquanto a Selic pode subir para a faixa de 12,25% a 12,75%. O centro dessa preocupação está na trajetória da dívida pública.
Cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, estimam que a dívida bruta alcance 86,4% do PIB e que o país registre um déficit primário de 0,7% do PIB. Para zerar esse rombo e restabelecer o equilíbrio, o governo precisaria fazer um corte de gastos ou aumento de receitas de cerca de R$ 102 bilhões. Se o objetivo for gerar um superávit primário de 0,5% do PIB, o esforço financeiro sobe para R$ 174 bilhões.
Quando as contas públicas permanecem no vermelho, o efeito cascata costuma atingir toda a economia: os juros sobem, o câmbio se desvaloriza e o custo de crédito encarece tanto para empresas quanto para famílias. "O problema de uma expansão fiscal de 1% do PIB está na possibilidade de o custo de financiamento absorver parte do crescimento gerado. No exercício de estresse, juros e câmbio mais altos eliminariam entre 25% e 50% do impulso inicial. Isso afetaria o preço das ações e a taxa de desconto dos projetos de investimento", explica Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
Araújo também reforça que o desencontro entre as taxas de juros é uma das maiores ameaças: "O maior risco para 2027 é a Selic cair sem que os juros de longo prazo acompanhem o movimento."
Para o investidor comum, a ilusão de juros elevados em moeda local também pede cautela. Uma Selic em patamar alto oferece retornos nominais atraentes em reais, mas a alta do dólar corrói rapidamente o poder de compra internacional da carteira.
"A Selic projetada de 11,75% para 2027 ofereceria um retorno nominal elevado, mas uma aplicação hipotética com esse rendimento, combinada com desvalorização cambial de 10%, entregaria apenas 1,6% em dólar, antes de custos e impostos", pontua Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.
Murad destaca que, em momentos de incerteza doméstica, olhar para fora é essencial para proteger o patrimônio: "Com crescimento mundial de 3,4% previsto pelo FMI, a diversificação por moedas, geografias e ETFs internacionais permite ao investidor acessar diferentes ciclos econômicos e reduzir a concentração patrimonial no cenário brasileiro."
No mercado acionário, o impacto tende a ser desigual. Companhias exportadoras costumam se beneficiar de um dólar mais valorizado, enquanto setores voltados ao consumo doméstico sentem o peso do crédito caro e da renda comprimida. Para ambos os analistas, a atração de capital produtivo e a sustentabilidade do crescimento do Brasil dependerão, essencialmente, da credibilidade fiscal e de regras claras para os próximos anos.
