Risco fiscal e inflação desancorada ameaçam repasse de eventuais cortes da Selic ao crédito
Boletim Focus aponta redução no crescimento do PIB para 1,95% em 2026, mas desconfiança com contas públicas e IPCA acima da meta mantêm juros longos pressionados e elevam exigências no setor imobiliário e em operações estruturadas
O mercado financeiro revisou para baixo a projeção de crescimento da economia brasileira em 2026, reduzindo a estimativa de 1,98% para 1,95%, de acordo com o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (24). Embora a desaceleração econômica costume aliviar as pressões de demanda, o quadro de incerteza fiscal e as expectativas de inflação elevadas impõem entraves para que eventuais reduções na taxa básica de juros, a Selic, barateiem o custo real do crédito.
Com a Selic atualmente em patamar restritivo, situada cerca de 7,75 pontos percentuais acima da inflação, especialistas alertam que a flexibilização monetária pode ter alcance limitado na ponta final caso o cenário fiscal não apresente melhora consistente.
Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o quadro das contas públicas atua como um freio direto sobre o alívio monetário. "A piora fiscal pode impedir que a desaceleração se converta em cortes maiores, e o próprio crescimento deste ano já caiu para 1,95%", avalia o executivo.
A desconexão entre a desaceleração da atividade e os demais indicadores macroeconômicos é detalhada por Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. Segundo ele, o cenário impõe barreiras claras à atuação da autoridade monetária.
"A atividade perde força, o que normalmente reduziria pressões de demanda, mas o IPCA projetado para 2026 continua em 5,02%, acima do teto da meta, e a estimativa para 2027 voltou a subir. Paralelamente, a dívida líquida esperada para 2027 avançou para 73,54% do PIB. O Banco Central pode reconhecer a desaceleração e realizar ajustes na Selic, mas terá dificuldade para acelerar o ritmo enquanto as expectativas de inflação e a trajetória fiscal não caminharem na mesma direção", pontua Araújo.
O executivo adverte que esse descompasso pode fazer com que o juro básico caia sem o devido alívio nos prazos mais longos. "Esse descompasso pode criar uma situação em que o juro básico recua, mas a curva longa, utilizada na precificação de fundos, crédito e operações estruturadas, permanece pressionada", explica.
Diante desse contexto e da cautela externa, Araújo reforça a necessidade de solidez operacional no mercado de capitais. "Em um cenário internacional de energia mais cara e bancos centrais cautelosos, a qualidade da infraestrutura financeira ganha ainda mais relevância. Fundos estruturados, contas escrow, operações de aquisição e veículos patrimoniais precisam incorporar testes de liquidez, governança, controles e cenários de estresse. A administração fiduciária deixa de ser apenas uma função operacional e passa a atuar como uma camada de proteção para que gestores, empresas e investidores atravessem mudanças de mercado com precisão e segurança."
Os impactos dessa dinâmica sobre os financiamentos de longo prazo e a construção civil são destacados por André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital. O executivo lembra que as taxas de curto e longo prazo respondem a lógicas diferentes.
"No financiamento imobiliário, a Selic de curto prazo e o custo de uma operação de longo prazo são preços diferentes. O Focus aponta atividade mais fraca, mas mantém o IPCA de 2026 em 5,02%, acima do teto da meta, eleva novamente a inflação esperada para 2027 e projeta dívida líquida de 73,54% do PIB. Essa combinação pode permitir ajustes pontuais na taxa básica, mas manter elevados os juros longos utilizados como referência na estruturação de crédito para obras que atravessam vários anos", afirma Caruso.
Segundo o CEO da Pilar Capital, a incerteza fiscal eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores, o que altera a estratégia de concessão de crédito. "A piora fiscal pode limitar cortes maiores porque aumenta o prêmio exigido pelos investidores para comprometer capital por períodos extensos. No setor imobiliário, isso reforça a necessidade de avaliar cada projeto pelo fluxo de vendas, estágio da obra, qualidade dos recebíveis, garantias, margem e velocidade de execução, em vez de depender apenas da expectativa de queda da Selic."
Para viabilizar novos projetos nesse ambiente desafiador, Caruso aponta o papel de ferramentas como os FIDCs. "Operações estruturadas por meio de FIDCs podem ajustar desembolsos ao avanço físico do empreendimento e acompanhar continuamente a geração de caixa. Mesmo em um cenário de juros elevados, projetos com demanda comprovada, estrutura de capital equilibrada e monitoramento técnico podem encontrar financiamento. O crédito tende a ser mais seletivo, mas também mais conectado à viabilidade econômica de cada empreendimento", conclui.
