Reeleição de Lula abre perspectivas para o mercado imobiliário em 2027

Especialista em mercado imobiliário avalia que o desempenho do setor dependerá das decisões econômicas do governo diante da pressão sobre os custos da construção

Reeleição de Lula abre perspectivas para o mercado imobiliário em 2027. Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil
Reeleição de Lula abre perspectivas para o mercado imobiliário em 2027. Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil
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Poder da Capital

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no último domingo (25), coloca em evidência os desafios econômicos que o governo enfrentará a partir de janeiro de 2027, com reflexos diretos sobre o mercado imobiliário. O setor encerra 2026 com crescimento nas vendas, mas enfrenta juros elevados, encarecimento da construção civil e dificuldades de acesso ao crédito em parte dos segmentos. Para Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, a continuidade desse desempenho dependerá da previsibilidade econômica, das condições de financiamento e da capacidade de ampliar a oferta de imóveis.

“O próximo governo recebe um mercado que continua vendendo, mas enfrenta limites importantes para crescer. O resultado positivo nas vendas não elimina o peso dos juros, o encarecimento das obras nem a dificuldade de muitas famílias para financiar um imóvel. Se essas barreiras continuarem, o setor poderá movimentar bilhões e, ao mesmo tempo, deixar uma parcela significativa da população fora do mercado”, afirma Claudino.

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Os Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que 226.536 imóveis residenciais novos foram vendidos no primeiro semestre de 2026, alta de 5,4% em relação ao mesmo período de 2025. Os lançamentos, por sua vez, somaram 211.651 unidades, recuo de 0,3% na comparação anual. Os números indicam uma demanda consistente, mas apontam um ritmo mais moderado na ampliação da oferta. 

Minha Casa, Minha Vida 

A habitação popular tem desempenhado papel central na atividade imobiliária. No segundo trimestre de 2026, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 58% dos lançamentos residenciais registrados no levantamento da CBIC, com 62.129 unidades. No mesmo período, o programa concentrou 51% das vendas, com 58.392 imóveis comercializados. A participação reforça a importância do financiamento habitacional e dos recursos direcionados à população de menor renda para a dinâmica do setor. 

Para Claudino, a continuidade dos programas habitacionais precisa estar associada à viabilidade dos empreendimentos e à capacidade de as famílias assumirem compromissos financeiros de longo prazo. “Política habitacional precisa entregar moradia acessível, com financiamento compatível com a renda e oferta suficiente nas regiões onde as pessoas vivem e trabalham. Quando o preço da terra, os custos de construção e as condições de crédito inviabilizam os projetos, a conta chega ao comprador. O desafio do governo será garantir que os recursos destinados à habitação se convertam em imóveis que as famílias realmente consigam adquirir”, avalia.

O segmento de médio e alto padrão também exige atenção. Embora tenha registrado volume expressivo de financiamento em 2026, enfrenta juros mais altos nas operações a taxas de mercado, comprometimento da renda das famílias e aumento do estoque de unidades em determinadas regiões. A redução dos recursos da poupança disponíveis para o crédito imobiliário é outro fator que influencia as perspectivas para 2027.

Juros seguem como obstáculo

O financiamento imobiliário pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) alcançou R$ 67,2 bilhões para aquisição de imóveis no primeiro semestre de 2026, alta de 12% em relação aos R$ 60,1 bilhões registrados no mesmo intervalo do ano anterior. Considerando também os recursos destinados à construção, o volume chegou a R$ 93,7 bilhões, crescimento de 29%. Os financiamentos para construção mais que dobraram, passando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões no período. 

Apesar da expansão, o custo do dinheiro permanece decisivo para a capacidade de compra. Juros elevados aumentam o valor das parcelas, restringem o montante que o consumidor consegue financiar e podem adiar decisões de aquisição. Para as empresas, o custo do capital também influencia a viabilidade de novos projetos e o ritmo de lançamento dos empreendimentos.

“Crédito disponível e crédito acessível são coisas diferentes. O financiamento pode crescer em volume, mas uma família ainda pode não conseguir aprovação ou assumir as parcelas sem comprometer o orçamento. O mercado precisa de condições que aproximem a capacidade de compra dos consumidores dos preços praticados. Sem isso, a demanda potencial não se transforma integralmente em negócios”, afirma o especialista.

A trajetória da taxa básica de juros e a condução da política fiscal estarão entre os fatores que influenciarão o custo do financiamento em 2027. Uma perspectiva econômica mais previsível pode favorecer o planejamento de investimentos e a avaliação de riscos pelas empresas, enquanto incertezas sobre as contas públicas tendem a repercutir nas expectativas para os juros futuros.

Mão de obra

Além do crédito, a pressão sobre os custos de produção continua no radar do setor. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acumulou alta de 6,61% nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, acima da inflação oficial de 4,58% registrada no mesmo intervalo, segundo os dados citados pelo portal Portas. A elevação dos preços de materiais e insumos, somada à escassez de profissionais qualificados, afeta o orçamento das obras e pode pressionar o valor final dos imóveis.

A produtividade aparece como uma das alternativas para reduzir parte dessa pressão. Segundo a reportagem do Portas, cerca de 16% das obras utilizam algum sistema construtivo industrializado. A adoção de tecnologias, a modernização dos processos e a qualificação profissional podem contribuir para diminuir desperdícios, melhorar prazos e tornar os projetos mais eficientes. A mudança, porém, exige investimentos, planejamento e adaptação das empresas.