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Queda nos preços industriais abre espaço para alívio da inflação até o fim do ano

Recuo consecutivo no Índice de Preços ao Produtor pode reduzir a projeção do IPCA em até 0,5 ponto percentual, mas juros altos e volatilidade externa ainda exigem cautela

Queda nos preços industriais abre espaço para alívio da inflação. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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Victor Gomes

A desaceleração dos custos nas fábricas brasileiras começa a desenhar um cenário mais favorável para a inflação ao consumidor em 2026. Com a retração de 0,83% registrada pelo Índice de Preços ao Produtor (IPP) em julho, somada a um recuo similar observado no mês anterior, analistas do mercado financeiro projetam um impacto direto de alívio sobre o IPCA, que pode ter sua estimativa reduzida até o encerramento de dezembro.

O movimento foi puxado principalmente pelos segmentos de refino de petróleo, químicos, indústrias extrativas e bens intermediários, que funcionam como a base de custos para diversas cadeias produtivas. Para Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, o resultado de julho consolida um momento de alívio estrutural nos custos, e não um dado isolado. Segundo o executivo, o cenário atual reflete tanto a queda de preços em insumos quanto um ritmo de atividade econômica mais contido.

"O IPP de julho reforça uma descompressão relevante dos custos industriais. A queda de 0,83%, depois de recuo semelhante em junho, mostra que não estamos diante de um movimento isolado. O alívio veio principalmente de bens intermediários, refino, químicos e indústrias extrativas, justamente segmentos que alimentam custos ao longo de várias cadeias produtivas", destaca Piran Jr.

O executivo pondera, no entanto, que o repasse aos preços finais não ocorre de maneira automática ou uniforme. "Historicamente, parte relevante das mudanças de custos industriais aparece nos preços ao varejo ao longo de um a dois trimestres, embora a intensidade varie muito por setor. Mantida uma trajetória semelhante nos próximos meses, vemos potencial para retirar algo entre 0,1 e 0,2 ponto percentual do IPCA até o fim de 2026."

Piran Jr. ressalta ainda que, apesar de o dado aliviar a pressão sobre o capital de giro das empresas, o ambiente corporativo segue desafiador devido à política monetária restritiva. "A melhora dos custos ajuda a geração de caixa, porém empresas alavancadas ainda enfrentam uma Selic de 14% e condições de refinanciamento bastante restritivas."

Divergência com o cenário externo

A dinâmica positiva da indústria nacional também chama a atenção por destoar do panorama internacional, onde pressões sobre energia e commodities ainda preocupam órgãos multilaterais.

Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, aponta que o alívio doméstico precisa ser monitorado de perto diante dos riscos externos. "O recuo do IPP brasileiro ocorre na contramão de parte relevante do cenário internacional. O Banco Mundial projeta alta de 24% nos preços globais de energia em 2026, enquanto o FMI afirma que o processo mundial de desinflação perdeu força. Por isso, a queda de 5,65% no refino brasileiro e sua contribuição de -0,56 ponto percentual para o índice precisam ser vistas como um alívio importante, mas condicionado à trajetória do petróleo e do dólar", avalia.