Queda na produção industrial acende alerta e pode travar até R$ 25 bilhões em investimentos em 2027

Recuo generalizado em agosto pressiona caixa das empresas, afeta crédito de longo prazo e limita cortes mais agressivos na taxa Selic

Queda na produção industrial acende alerta. Foto: Jonathan Campos/AEN-PR
Queda na produção industrial acende alerta. Foto: Jonathan Campos/AEN-PR
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Victor Gomes

O recente recuo de 0,6% na produção industrial brasileira em agosto, marcado por perdas em todas as quatro grandes categorias econômicas, trouxe um sinal de cautela para o setor produtivo. O enfraquecimento da atividade, somado a custos de financiamento ainda restritivos e incertezas no cenário internacional, ameaça paralisar bilhões de reais em expansões fabris planejadas para 2027.

O principal obstáculo para a continuidade dos planos corporativos está nas condições financeiras. De acordo com Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o momento exige rigor das companhias com a gestão de liquidez e prazos. "A recuperação industrial depende tanto da disposição de investir quanto da capacidade de organizar o financiamento desses projetos. O recuo de agosto, acompanhado de queda nas quatro grandes categorias, recomenda atenção à geração de caixa, aos prazos das dívidas e à qualidade dos recebíveis", pontua.

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Araújo adverte que a viabilidade técnica de um projeto não garante sua execução imediata quando as taxas de juros pesam sobre o balanço. "Uma empresa pode ter um projeto economicamente viável e ainda assim adiá-lo se precisar financiar uma operação de longo prazo com recursos caros e de vencimento curto. A volatilidade internacional agrava esse problema quando altera o custo de equipamentos importados ou as condições de captação", avalia. Pelas estimativas do executivo, o adiamento de 5% a 10% das inversões previstas equivaleria a reter entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões a cada R$ 100 bilhões programados para 2027, gerando um efeito em cadeia de menos encomendas e retração contínua na produção.

Embora uma indústria mais fraca ajude a desinflacionar o segmento de bens de consumo, isso não assegura uma rodada rápida de alívio monetário por parte do Banco Central. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, lembra que variáveis externas e a pressão sobre a moeda nacional complicam a equação. "A comparação internacional ajuda a entender por que uma indústria mais fraca no Brasil não garante uma queda proporcional dos juros domésticos. A produção brasileira depende da demanda local, mas também enfrenta preços de energia, condições comerciais, câmbio e custos de financiamento influenciados pelo exterior", ressalta.

Murad explica que a aversão ao risco no exterior encarece insumos e maquinários no momento em que as empresas menos conseguem repassar custos aos clientes. "A demanda menor favorece a desinflação de bens, mas o câmbio pode absorver parte desse benefício. O espaço para cortes da Selic depende do saldo entre essas forças", afirma.

Para que os desembolsos produtivos voltem a acelerar, analistas apontam que será necessária uma combinação de juros longos menores, estabilidade cambial e volta das encomendas. Enquanto essa virada não se consolida, o crédito privado e as estruturas de mercado de capitais devem priorizar empresas com receitas previsíveis, governança documental sólida e dívidas bem casadas com o tempo de retorno dos ativos.