Pressão fiscal e juros altos ameaçam crédito e podem adiar retomada da economia até 2029
Descompasso entre inflação persistente e taxas futuras encarece financiamentos e aumenta cautela no orçamento das famílias e empresas; Confira análise
O cenário macroeconômico brasileiro desenhado pelas projeções recentes do Boletim Focus e pelos índices de inflação, como o IGP-10, aponta para um ambiente prolongado de juros elevados e crédito mais restritivo. Com a taxa implícita para 2029 operando 21,2% acima da Selic projetada para 2028, analistas alertam que o custo do dinheiro continuará pesando sobre o consumo e os investimentos produtivos nos próximos anos. Mesmo com um câmbio pontualmente mais favorável, o alívio nos preços de importados não tem sido suficiente para conter despesas básicas do dia a dia, como serviços e habitação. Esse quadro reforça a percepção de que a convergência da inflação será um processo lento, exigindo do Banco Central a manutenção de taxas de juros em patamares restritivos por mais tempo.
A principal raiz dessa cautela está na incerteza com as contas públicas e nas pressões domésticas de preços. Para Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos (CIO) da Pilar Capital, a valorização do real ajuda, mas não soluciona problemas estruturais: "O principal risco que a valorização do real não está conseguindo compensar é a combinação de fragilidade fiscal, expectativas inflacionárias desancoradas e pressões domésticas sobre os preços, especialmente nos serviços. O câmbio favorece a inflação de produtos importados, mas não resolve os desequilíbrios estruturais da economia brasileira."
A agenda fiscal ganha peso decisivo no pós-eleições. A falta de um plano transparente para equilibrar a dívida pública tende a elevar os prêmios de risco, empurrando a taxa Selic para níveis superiores aos almejados pelo mercado. Segundo Cassio Viana de Jesus, sem medidas concretas para estabilizar as contas do governo, será difícil ver a Selic recuar para a casa de 12% ao final de 2027, sendo mais provável a permanência de patamares elevados. Em uma conjuntura de deterioração fiscal contínua, o executivo estima que a recuperação consistente dos investimentos e da compra de bens duráveis pode ser postergada entre 12 e 18 meses, empurrando a retomada econômica para 2028 ou 2029.
Na ponta final, quem sente o impacto imediato é o consumidor comum. As taxas praticadas pelos bancos demoram a cair porque embutem riscos de calote e custos operacionais, o que encarece diretamente linhas de crédito e empréstimos de longo prazo.
Alberto Friggi, presidente-executivo (CEO) da Friggi & Secco, destaca que, caso as incertezas fiscais e a inflação persistam, a Selic pode fechar 2027 entre 13% e 13,25%, encarecendo novos contratos em até 3 pontos percentuais ao ano. "Em uma simulação de financiamento imobiliário de R$ 500 mil por 15 anos, a elevação da taxa de 12% para 14% ao ano acrescentaria aproximadamente R$ 600 à prestação mensal. Isso poderia atrasar entre 9 e 15 meses a recuperação das compras financiadas e dos investimentos, tornando o planejamento dos prazos e das garantias ainda mais relevante", afirma.
A avaliação conjunta dos especialistas converge para a necessidade urgente de equilíbrio entre política monetária, controle de gastos públicos e previsibilidade jurídica. Sem essa coordenação, o Brasil corre o risco de conviver com crédito caro por mais tempo, travando a capacidade de investimento das empresas e limitando o poder de compra da população.
