Pressão prolongada dos juros sufoca o varejo e acelera crises operacionais

Especialistas alertam que a permanência da taxa em patamares elevados encarece a rolagem de dívidas e comprime a renda das famílias

Pressão prolongada dos juros sufoca o varejo e acelera crises operacionais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Poder da Capital

O impacto da política monetária restritiva sobre o varejo brasileiro vai além do custo imediato do crédito corporativo. O principal catalisador de risco para o setor está na duração dos juros altos, fator que elimina o tempo hábil para as empresas se adaptarem a mudanças estruturais de mercado e deteriora o poder de compra das famílias em um aperto que atinge as duas pontas da economia.

O efeito cumulativo das taxas elevadas contamina gradualmente a saúde operacional das companhias. "Os juros altos funcionam inicialmente como catalisadores. Mas, quando permanecem elevados por muito tempo, deixam de infringir dano apenas ao custo de alavancagem das empresas e passam a comprometer também a operação: aumentam despesas financeiras, dificultam o refinanciamento e reduzem a geração de caixa", avalia Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital. O executivo ressalta que setores como o varejo e a construção civil sentem o choque de forma simultânea. "A empresa enfrenta crédito mais caro ao mesmo tempo em que seus clientes encontram maior restrição para financiar consumo ou aquisição de imóveis", pontua.

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Embora o comércio global passe por transformações profundas independentemente da taxa de juros, o cenário doméstico acelera os problemas de solvência. "O que o juro brasileiro faz é outra coisa, ele antecipa e agrava a conta, porque tira da empresa o tempo de se adaptar. Uma companhia que teria cinco anos para mudar de modelo passa a ter um", explica André Matos, CEO da MA7 Capital.

Para monitorar a solvência do setor em um momento de refinanciamento mais caro, Matos recomenda atenção a três sinais críticos no balanço das empresas: a concentração de vencimentos no curto prazo, a inclusão de ressalvas de auditores sobre continuidade operacional e a dependência excessiva de garantias reais para sustentar linhas de crédito.

Na ponta da demanda, o endividamento familiar reduz a margem para compras de maior valor agregado. Como aponta Matos, cerca de 30% do orçamento das famílias já está comprometido apenas com o pagamento de juros e parcelas de dívidas passadas. Esse estrangulamento da renda disponível retira a liquidez necessária para a aquisição de bens duráveis, enfraquecendo a receita das varejistas justamente no momento em que suas despesas financeiras atingem o ápice.