Prévia da inflação desacelera para 0,32% em outubro, mas taxa em 12 meses supera teto da meta
Queda nas contas de luz e passagens aéreas conteve o índice no mês, enquanto alimentos e combustíveis mantêm alerta ligado para o Banco Central
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial do país, registrou alta de 0,32% em outubro. O resultado representa uma desaceleração frente ao avanço de 0,70% visto em setembro e ficou abaixo das projeções do mercado financeiro, que esperava taxa próxima de 0,43%. Apesar do alívio momentâneo no bolso do consumidor, a inflação acumulada nos últimos 12 meses subiu para 4,62%. Com essa marca, o índice ultrapassa o teto da meta estipulada para o ano, cujo limite máximo de tolerância é de 4,50%.
O recuo na taxa mensal foi impulsionado principalmente pelas passagens aéreas e pela energia elétrica residencial, beneficiada pela vigência da bandeira tarifária verde. Em contrapartida, os grupos de alimentação e combustíveis seguiram em trajetória de alta, impedindo um recuo mais expressivo do indicador geral. Segundo analistas, o alívio pontual de outubro mascara riscos que continuam no radar econômico. O gerente de investimentos da Eleva Invest, Gabriel Foglieni, ressalta que a composição interna do índice ainda exige atenção redobrada:
"O alívio do mês veio da energia elétrica, com a volta da bandeira verde, e das passagens aéreas, que caíram mais de 9%. Mas os alimentos seguem pressionando, com alta de quase 0,90% puxada por tomate, cebola e batata, e os combustíveis subiram 1,2%. O ponto de atenção é a alimentação fora de casa, que acelerou de 0,44% para 0,56%, com refeição e lanche em alta, e que funciona como termômetro de serviços. É uma notícia boa na margem, mas não muda o quadro."
A preocupação com o setor de alimentação também reflete fatores climáticos. O economista do banco Daycoval, Julio Barros, avalia que o período de preços mais baixos na mesa das famílias ficou para trás:
"O principal destaque baixista foi a queda dos preços das passagens aéreas, em vez da alta esperada. No geral, o número acabou vindo mais parecido com o que a gente esperava em termos de composição, ou seja, com a alimentação pressionando, com alta mais forte, deixando para trás o período mais benéfico dos preços dos alimentos. Itens in natura e arroz tiveram alta neste mês, possivelmente refletindo já os efeitos parciais do El Niño. A gente tem alertado que, daqui para frente, os preços dos alimentos devem continuar subindo em função justamente desse clima mais adverso."
Reflexos na taxa básica de juros
O comportamento do indicador repercute diretamente nas decisões do Banco Central, que define os rumos da taxa básica de juros (Selic). Embora a desaceleração mensal traga certo respiro às reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), o fato de o acumulado em 12 meses estar além da meta reforça a necessidade de vigilância.
De acordo com Gabriel Foglieni, "o dado tende a aliviar a pressão sobre o Copom, que se reúne nos dias 3 e 4 de novembro, mas com a inflação em 12 meses acima do teto, a cautela deve prevalecer".
