Pré-Copom: Focus projeta Selic a 12,5% e analistas alertam que risco fiscal ameaça alívio na economia
Primeiro boletim após as eleições reflete piora nas expectativas de inflação e PIB, enquanto especialistas cobram controle de gastos públicos para destravar cortes de juros mais profundos
Às vésperas da nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado financeiro recalibrou as projeções para os rumos da taxa básica de juros no Brasil. Segundo o mais recente Relatório Focus, a expectativa para o ciclo atual é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa para 12,50% ao ano. No entanto, para além do movimento imediato, a primeira leitura do relatório divulgada após o período eleitoral expõe uma mudança relevante de humor: o aumento da desconfiança em relação ao equilíbrio das contas públicas.
De acordo com analistas, o principal obstáculo para uma queda consistente dos juros no médio prazo deixou de ser apenas o ritmo da atividade econômica e passou a ser o risco fiscal. Com expectativas de inflação mais altas e projeções de crescimento menores, a capacidade do Banco Central de aliviar o aperto monetário fica diretamente condicionada à postura do governo em relação ao orçamento. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, aponta que o mercado reagiu de forma imediata ao novo contexto político. “O primeiro Focus após as eleições já mostra uma mudança importante nas expectativas, já que o mercado passou a projetar juros mais altos, crescimento menor e inflação mais resistente. O problema central deixou de ser apenas a desaceleração da economia e passou a ser a percepção de risco fiscal”, afirma Lima.
O analista explica que a perda de fôlego da economia ainda permite cortes graduais na taxa básica, mas pondera que metas mais ambiciosas dependem de reformas estruturais. “A Selic ainda pode cair nos próximos anos, mesmo com a inflação pressionada, porque a atividade econômica está enfraquecendo e os juros reais continuam elevados. Entretanto, acredito que a projeção de 10% para 2028 só voltará a ser viável com um ajuste fiscal convincente, baseado no controle das despesas obrigatórias e na recuperação dos resultados primários. Sem isso, qualquer expansão adicional dos gastos tende a ser cobrada pelo mercado por meio de um dólar mais caro, juros futuros elevados e crédito mais restrito. Para a Bolsa, vejo um ambiente de maior seletividade, com empresas endividadas e dependentes do consumo doméstico mais pressionadas”, complementa Lima.
A deterioração dos números também foi detalhada por André Matos, CEO da MA7 Capital, que destacou a rápida reversão do otimismo prévio em relação às contas do país. “O primeiro Focus depois da eleição mostra que o mercado abandonou o cenário de ajuste fiscal que vinha precificando. Em apenas uma semana, a projeção da Selic para o fim de 2027 subiu de 11,75% para 12,50%, a inflação esperada saltou de 4,34% para 4,76%, o dólar passou de R$ 5,15 para R$ 5,40 e o crescimento caiu de 1,31% para 1,20%. Entre os economistas que atualizaram as estimativas nos últimos dias, o quadro é ainda pior: PIB de apenas 1% e inflação de 4,85% no ano que vem”, observa Matos.
Segundo o executivo, o consenso de mercado agora calcula um déficit primário de 0,4% do PIB em 2027 e uma dívida pública atingindo 77% do PIB em 2028, o que invalida a tese de que os juros poderiam ceder sem esforço governamental. “Na minha avaliação, o Focus ainda pode estar otimista. Sem um sinal fiscal claro, não seria surpresa a Selic terminar 2027 entre 13,75% e 14,5%. Para que ela volte aos 10% em 2028, o governo precisaria sair do déficit e mostrar um caminho crível de superávits crescentes, com revisão de gastos obrigatórios e de benefícios tributários, rumo aos cerca de 2% do PIB que estabilizam a dívida”, diz Matos.
O executivo ressalta ainda o impacto desse ciclo sobre as contas públicas e o mercado de capitais: “A ideia de que mais gastos seriam compensados pelo dólar e pelos juros mais altos não se sustenta: mais da metade da dívida é atrelada à Selic, e cada ponto a mais de juros custa algo perto de R$ 50 bilhões por ano ao governo, cerca de metade de todo o pacote de medidas da campanha. Para a Bolsa, isso significa juros longos perto de 15%, ações mais baratas e investimentos adiados. A queda de quase 17% do Ibovespa na semana da eleição mostra o tamanho da desconfiança. A recuperação depende menos do Banco Central e mais de um plano fiscal em que o mercado consiga acreditar.”
Com isso, a expectativa para o anúncio do Copom vai além da decisão de curto prazo sobre os juros: investidores e analistas estarão atentos ao tom do comunicado oficial para medir até que ponto o Banco Central precisará endurecer o discurso diante de um cenário de despesas públicas sob constante pressão.
