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PIB fraco e inflação acima da meta expõem gargalos estruturais e limitam cortes na Selic

Desaceleração para 1,93% com IPCA em 4,60% exige foco em ganhos de produtividade e eficiência operacional das empresas diante do aperto monetário prolongado

PIB fraco e inflação acima da meta expõem gargalos estruturais e limitam cortes na Selic. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

A combinação de baixo dinamismo econômico e persistência inflacionária delineia um cenário desafiador para a condução da política monetária e para a sustentabilidade dos negócios no Brasil. Segundo o Relatório Focus, a projeção de avanço de apenas 1,93% para o Produto Interno Bruto (PIB) convive com uma inflação esperada de 4,60%, patamar que supera o teto da meta oficial e evidencia pressões de custos que a simples desaceleração da demanda não consegue conter de forma rápida.

A perda de tração da atividade econômica sem o recuo imediato dos preços indica que a raiz do problema não se restringe a um consumo aquecido. Custos financeiros elevados, entraves logísticos, tarifas de energia e pressões salariais continuam sendo repassados ao consumidor final mesmo diante de volumes de venda menores, o que enfraquece a transmissão direta do desaquecimento sobre os índices de preços.

“Quando o PIB cresce 1,93% e a inflação esperada continua acima do teto, o diagnóstico não pode se limitar à ideia de consumo excessivo. Parte da atividade já perdeu velocidade, mas as empresas ainda convivem com custos financeiros, logísticos, energéticos e salariais que demoram a recuar. Esses custos entram nos preços mesmo quando o volume vendido cresce pouco, comprimindo a capacidade de a desaceleração econômica produzir uma desinflação rápida”, avalia Letícia Moschioni, sócia da Finscale.

No cenário externo, a fragmentação das cadeias produtivas globais, choques no setor de energia e a imposição de tarifas encarecem insumos essenciais, gerando volatilidade cambial e retardando a importação de alívio inflacionário. Internamente, esse quadro amarra a atuação do Banco Central. Embora o Comitê de Política Monetária (Copom) ainda possa iniciar uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic em setembro, a deterioração das expectativas impede um ciclo de afrouxamento agressivo.

Estimativas apontam que o nível restritivo dos juros deve subtrair entre 0,6 e 0,8 ponto percentual do PIB até o fim do ano, penalizando sobretudo o consumo financiado e as despesas com capital de giro. Essa perda de tração evidencia que as raízes da inflação e do baixo crescimento decorrem também de entraves estruturais de produtividade que afetam toda a cadeia produtiva nacional.
“O baixo crescimento acompanhado de uma inflação ainda resistente mostra que o Brasil não enfrenta apenas um problema de demanda, mas também de produtividade. 

Custos logísticos, processos pouco eficientes, baixa digitalização e dificuldade de acesso a serviços financeiros encarecem a operação das empresas e impedem que a desaceleração da economia se transforme rapidamente em desinflação”, destaca Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest.

Diante de um custo de capital que permanecerá oneroso no médio prazo, a sustentabilidade corporativa passa a depender de iniciativas que ataquem diretamente os atritos operacionais e a baixa eficiência. Na visão de Moschioni, aguardar taxas mais baixas não é suficiente: “Integrar pagamentos, crédito e dados à própria operação permite melhorar a leitura de risco, reduzir atritos, organizar o capital de giro e capturar receitas financeiras que antes ficavam integralmente fora do negócio”.

Esse movimento também redefine os critérios do mercado de capitais e dos investimentos em inovação. O setor de tecnologia e venture capital tem direcionado aportes para soluções em logística, gestão, educação, agronegócio e finanças que ataquem gargalos crônicos do setor produtivo, priorizando governança e retorno financeiro comprovado.

“O país precisa produzir mais, com menos capital, menor desperdício e maior eficiência. É justamente nessa lacuna que o venture capital pode contribuir. Startups de tecnologia financeira, logística, educação, agronegócio e gestão de pessoas desenvolvem soluções capazes de reduzir custos, ampliar o acesso ao crédito, automatizar processos e elevar a produtividade. O cenário reforça a busca por negócios que resolvam ineficiências reais e consigam crescer com disciplina financeira. O capital deixa de premiar apenas expansão acelerada e passa a valorizar empresas que entregam economia mensurável, recorrência de receita e capacidade de transformar problemas estruturais em soluções escaláveis”, conclui Patrus.