Otimismo eleitoral impulsiona mercado financeiro, mas sustentabilidade da alta depende da economia real

Entrada recorde de capital estrangeiro pode levar Ibovespa aos 220 mil pontos e derrubar a moeda americana, embora incertezas fiscais ainda exijam cautela de empresas e investidores

Entrada recorde de capital estrangeiro pode levar Ibovespa aos 220 mil pontos. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Entrada recorde de capital estrangeiro pode levar Ibovespa aos 220 mil pontos. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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Victor Gomes

O mercado financeiro brasileiro vive dias de euforia após o primeiro turno das eleições. O forte ingresso de capital externo abriu espaço para projeções ambiciosas: o Ibovespa pode buscar marcas históricas, rondando até os 220 mil pontos, enquanto a cotação do dólar tem fôlego para testar o patamar de R$ 4,80. Apesar do clima favorável nas cotações, analistas alertam que o movimento atual reflete expectativas futuras e que o verdadeiro desafio será transformar esses ganhos em alívio para a atividade produtiva do país.

A disparada recente se concentrou em ativos ligados diretamente ao consumo interno. De acordo com Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, é fundamental distinguir a antecipação do mercado da melhora concreta dos indicadores: “Uma alta tão intensa da Bolsa em poucos dias exige separar melhora de fundamentos de antecipação de expectativas. Após o primeiro turno, 18 ações avançaram mais de 20% em apenas dois pregões, sendo 17 delas componentes do índice de small caps. Isso indica uma aposta expressiva na queda dos juros e na recuperação da economia doméstica, alimentada pela entrada de investidores estrangeiros. Se esse fluxo continuar, o Ibovespa poderá buscar a região de 215 mil pontos, enquanto o dólar pode testar R$ 4,80.”

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Apesar do salto nos índices, a realidade do crédito para o setor corporativo segue apertada. O custo dos empréstimos ainda pesa no orçamento das companhias, o que limita o impacto imediato da euforia da Bolsa no dia a dia dos negócios. Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, o reflexo prático dessa entrada de recursos dependerá de como o crédito se comportará daqui para frente. “O verdadeiro teste do otimismo eleitoral será verificar se a entrada de capital estrangeiro consegue sair das telas da Bolsa e chegar ao financiamento das empresas. Em julho, a taxa média do crédito livre para pessoas jurídicas estava em 25,4% ao ano. Portanto, mesmo com a valorização dos ativos brasileiros, o custo de financiar estoques, fornecedores e expansão continua elevado. Se o fluxo externo persistir até o segundo turno, a combinação de dólar mais baixo e recuo dos juros futuros poderá favorecer varejo, indústria e distribuição, sobretudo negócios com produtos importados ou necessidade recorrente de capital de giro.”

O rumo dessa maré positiva, contudo, continua atrelado à estabilidade política e ao equilíbrio das contas públicas. Caso o cenário mude, o mesmo dinheiro de fora que impulsionou os preços pode sair rapidamente, trazendo volatilidade e inflação. Segundo Moschioni, a capacidade de se blindar de choques bancários será decisiva para atravessar o próximo ciclo econômico. “Se as pesquisas mudarem ou o cenário fiscal gerar desconfiança, a retirada dos estrangeiros poderá elevar o câmbio e os spreads bancários, limitando a oferta de crédito e a recuperação econômica em 2027. Uma inflação mais resistente também reduziria o espaço para cortes da Selic. Nesse cenário, a criação de estruturas financeiras dentro das próprias empresas permite diversificar fontes de receita, financiar clientes e fornecedores e diminuir a dependência das linhas bancárias tradicionais”, finaliza.