Oportunidade verde: Brasil reúne agronegócio e energia para liderar descarbonização global
Em entrevista, Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, afirma que o país tem vantagens únicas em biocombustíveis e bioeletricidade, mas precisa destravar infraestrutura e acelerar investimentos
A união de cinco décadas entre política industrial, força agrícola e desenvolvimento tecnológico colocou o Brasil em posição ímpar na transição energética global. Para Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, esse arranjo produtivo representa uma fortaleza que os mercados internacionais ainda buscam decifrar. "O que o país fez certo foi não separar energia de agricultura. Isso é uma vantagem que levou 50 anos para construir, e que não se copia da noite para o dia", destaca a executiva.
Essa integração remonta à década de 1970, quando a crise global do petróleo impulsionou o Proálcool. Hoje, o país produz mais de 36 bilhões de litros de etanol por ano e ostenta mais de 80% de fontes renováveis na matriz elétrica. O modelo canavieiro sintetiza esse potencial: "A mesma planta que produz açúcar gera etanol de primeira e segunda geração, bioeletricidade e, no futuro próximo, SAF e combustível marítimo", explica Raphaella, ressaltando que o pioneirismo brasileiro foi fruto de visão de longo prazo.
Ao analisar as exigências de sustentabilidade corporativa, Raphaella desconstrói a ideia de que a agenda climática representa apenas obrigações burocráticas. "Para mim, descarbonização não é um custo que o setor produtivo precisa absorver por pressão regulatória ou reputacional. É, antes de tudo, uma estratégia de segurança energética", aponta.
O argumento se apoia na vulnerabilidade do mercado interno, que ainda importa entre 85% e 90% dos fertilizantes consumidos, além de volumes expressivos de diesel e gás natural liquefeito (GNL). Diante de tensões geopolíticas internacionais, soluções como a biomassa e o biometano atuam como amortecedores de volatilidade. Na visão da executiva, empresas que utilizam métricas auditadas pelo GHG Protocol e certificações globais saem na frente: "As empresas que souberem atuar neste cenário vão capturar vantagens competitivas reais, as demais vão depender apenas do preço da commodity".
Fragmentação externa e espaço para liderança
O xadrez climático global apresenta ritmos desiguais. Enquanto a China lidera em geração elétrica e registros de patentes limpas, a Europa concentra o capital sustentável. Ao mesmo tempo, recuos regulatórios em outras potências evidenciam a instabilidade internacional. "Num mundo em que a transição energética também é uma disputa geopolítica, o Brasil pode ser a resposta, desde que construa posicionamento proativo. Posicionamento é o que converte potencial em contrato", avalia Raphaella.
Por dominar múltiplos vetores energéticos limpos de forma simultânea, o país reúne atributos para atender parceiros internacionais em busca de suprimento confiável e descarbonizado.
O salto necessário no biometano
Entre as apostas para complementar a geração de energia renovável, o biometano desponta com grande potencial de expansão. Embora marcos regulatórios como a Lei do Combustível do Futuro e a criação do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) tenham pavimentado o setor, a operação ainda engatinha: o país gera cerca de 3 milhões de metros cúbicos diários, diante de uma capacidade que supera 100 milhões.
Os gargalos passam pela conexão de dutos e pela validação internacional dos atributos ambientais, mas o produto oferece atributos escassos no mercado internacional. "O mundo está experimentando uma demanda explosiva por energia firme e despachável. O biometano, como fonte despachável e renovável, tem um papel único a jogar nesse contexto, especialmente numa matriz como a brasileira, onde a complementaridade com hidro e solar é natural", conclui a executiva.
