Mercado recalcula Selic para 2027 após primeiro turno e vê alívio no custo de capital
Projeções mais otimistas que o Focus dependem do compromisso fiscal do próximo governo e podem destravar investimentos em empresas de crescimento
O desfecho do primeiro turno das eleições já começou a movimentar as expectativas dos analistas econômicos. Parte do mercado financeiro passou a projetar uma taxa básica de juros (Selic) em patamares inferiores aos registrados pelo mais recente Relatório Focus, estimando que os juros possam encerrar 2027 entre 11% e 11,5%, frente aos 12% apontados pelo consenso. A leitura predominante é que o desenho de forças políticas saído das urnas exige cautela, mas abre espaço para moderação econômica.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o relatório de mercado divulgado antes do pleito perdeu parte da validade diante da nova configuração política. "O Focus de hoje já nasce parcialmente defasado em relação ao novo risco político. Eu manteria viés de queda para a Selic e, neste momento, trabalharia com algo próximo de 11,5% no fim de 2027, abaixo dos 12% do consenso, mas condicionado às sinalizações fiscais após o segundo turno. A nova composição do Congresso pode favorecer uma agenda de controle de gastos, mas não garante ajuste, porque nenhuma força tem maioria suficiente para impor sozinha mudanças relevantes", pontua Lima.
O analista ressalta que o comportamento dos juros depende diretamente da postura do futuro presidente da República. "Se o próximo governo apresentar rapidamente uma trajetória crível para dívida e despesas, o prêmio fiscal tende a cair, abrindo espaço para dólar mais comportado, inflação menor e cortes adicionais de juros. Sem isso, o efeito eleitoral se dissipa e a Selic pode permanecer elevada por mais tempo. Para destravar investimento em 2027, o ponto central será reduzir a incerteza fiscal e regulatória e, principalmente, fazer os juros reais longos cederem, porque é isso que efetivamente reduz o custo de capital e melhora a decisão de investimento das empresas", explica.
Impacto no ecossistema de inovação
A perspectiva de uma taxa de juros mais baixa não altera apenas o crédito tradicional, mas mexe de forma profunda com o capital de risco e as startups brasileiras. Com a Selic em dois dígitos e projeções fracas para o Produto Interno Bruto (PIB), ativos seguros de renda fixa continuam competindo fortemente contra negócios inovadores.
Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, defende que a discussão vá além do número final da Selic e foque no custo de oportunidade para o investidor. "Eu olharia menos para a Selic de 2027 isoladamente e mais para o custo do capital de crescimento. O Focus apontava PIB de apenas 1,41% e Selic de 12%, combinação que mantém o investidor muito bem remunerado em ativos de baixo risco. Para venture capital, esse é o verdadeiro concorrente. Se o pós-eleição reduzir a percepção de risco e permitir que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, começa a mudar a relação entre risco e retorno para quem investe em empresas de crescimento", analisa Patrus.
O executivo ilustra essa dinâmica na prática: "O efeito pode aparecer antes na avaliação das empresas do que na economia real. Imagine uma startup projetando gerar R$ 20 milhões de caixa daqui a cinco anos. Se a taxa usada pelo investidor para descontar esse valor cair de 20% para 18%, o valor presente desse mesmo fluxo sobe de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 8,7 milhões, quase 9%. Não significa que valuations subirão automaticamente 9%, mas mostra por que custo de capital é decisivo para venture capital."
Para que o ecossistema volte a atrair grandes aportes, porém, Patrus pondera que o ambiente de negócios precisa permitir saídas lucrativas para os fundos. "O Congresso entra nessa conta porque estabilidade fiscal melhora a visibilidade de longo prazo. Para startups, entretanto, eu acrescentaria outro indicador: exits e novas rodadas. Se 2027 combinar juros menores, mercado de capitais mais funcional e reabertura de M&A, o ciclo pode melhorar antes mesmo de o PIB ganhar muita velocidade. Capital de risco volta quando o investidor consegue enxergar uma saída futura com mais clareza, não simplesmente quando o Copom corta 25 pontos-base", conclui.

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