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Mercado projeta retomada econômica, mas trajetória da dívida pública impõe cautela

Expectativa de corte de juros impulsiona otimismo para os próximos anos, enquanto custo de rolagem do endividamento pressiona contas públicas e eleva exigência de rigor no crédito

Mercado projeta retomada econômica, mas trajetória da dívida pública impõe cautela. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

O contraste entre a expectativa de dinamismo econômico e a piora nos indicadores fiscais de longo prazo reflete leituras de momentos distintos do ciclo financeiro nacional. Segundo pesquisa recente da PwC, 68% dos presidentes de instituições financeiras projetam uma aceleração da economia brasileira para 2026. Em contrapartida, as estimativas de mercado apontam que a dívida pública poderá romper a barreira de 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2034. A discrepância se traduz no comportamento corporativo recente: a confiança dos executivos na expansão das próprias receitas recuou de 62% para 48%. Para especialistas do setor, o cenário retrata um descompasso entre a cautela com os números correntes e a antecipação de um novo ciclo de afrouxamento monetário.

"O executivo está precificando uma virada que ainda não apareceu integralmente nos pedidos, nas vendas ou no caixa. A expectativa está concentrada no ciclo de queda dos juros, porque um custo financeiro menor altera desde a rolagem das dívidas empresariais até a disposição das famílias para consumir e parcelar", avalia André Matos, CEO da MA7 Capital.

O executivo pondera que, no curto prazo, a desaceleração ainda dita o ritmo da atividade. O recuo nos investimentos produtivos e a perda de fôlego no consumo das famílias sinalizam que o aperto monetário anterior continua sendo absorvido pela economia. Uma tração mais robusta, segundo Matos, tende a se concretizar apenas entre 2027 e 2028, desde que o risco fiscal não interrompa o alívio das taxas.

No que tange à escalada do endividamento soberano, o diagnóstico passa diretamente pelo peso financeiro do passivo já existente. "No caso da dívida, a resposta é essencialmente aritmética. O avanço atual decorre principalmente do custo de carregar e refinanciar um estoque elevado em um ambiente de juros altos, não apenas da criação de novas despesas", explica Matos. De acordo com ele, para evitar que o indicador supere 100% do PIB, o país dependerá de três frentes: crescimento econômico, entrega de superávits primários e queda no prêmio de risco, sendo esta última dependente de previsibilidade na trajetória fiscal.

A dissociação entre atividade e equilíbrio fiscal também reconfigura o ecossistema de financiamento privado. Em um quadro no qual o setor público pressiona as taxas estruturais, o mercado de capitais passa a preencher lacunas de liquidez. "Uma melhora da atividade no curto prazo pode elevar a demanda por crédito, mas não elimina os desequilíbrios acumulados nas contas públicas nem reduz automaticamente o custo de financiamento da economia", afirma Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

Nesse contexto, Araújo destaca o papel dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) como vetores de recursos para a cadeia produtiva fora dos canais bancários tradicionais. Ele alerta, contudo, para a necessidade de prudência diante de volumes maiores de concessão. "Crescimento nominal pode aumentar o volume de crédito sem representar, necessariamente, melhora equivalente da sua qualidade", ressalta Araújo. Segundo o gestor, a sustentabilidade dessa expansão exigirá estruturas sólidas de governança, maior fiscalização sobre os recebíveis e controle rígido das garantias ofertadas.