Mercado financeiro piora projeção do IPCA e ameaça de tarifa nos EUA eleva risco do dólar

Cenário que deve manter juros altos e aumentar seletividade no crédito; veja a análise do mercado

Cenário que deve manter juros altos e aumentar seletividade no crédito. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
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Victor Gomes

A previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência oficial da inflação no país, passou de 5,09% para 5,11% este ano. A estimativa consta no Boletim Focus divulgado na última segunda-feira (8) pelo Banco Central (BC), que reúne a expectativa de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos. O ajuste reflete um cenário de crescente desconforto. Embora o Produto Interno Bruto (PIB) sinalize melhora, o avanço da inflação e o distanciamento das metas estabelecidas indicam pressões persistentes na atividade econômica, reduzindo a margem para cortes na taxa básica de juros.

Para o CEO da MA7 Negócios, André Matos, o desenho atual deixa clara a falta de espaço para afrouxamentos monetários. "PIB de 1,90% com IPCA em 5,09% mostra uma economia sem folga para juros menores, enquanto a tarifa de 25% dos EUA pode pressionar o dólar, a inflação e adiar o alívio da Selic", analisa o executivo.

A proposta de sobretaxação anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros adiciona um forte componente de volatilidade ao mercado. O movimento gera riscos cambiais e potenciais encarecimentos em cadeias globais de suprimentos ligadas ao comércio exterior, mesmo antes de uma definição final sobre a lista de itens afetados.

O CEO da Azumi Investimentos, Edgar Araújo, destaca que a antecipação desse risco pelo mercado financeiro tende a se refletir diretamente no câmbio, na curva de juros e no custo de captação de recursos. Segundo ele, a tensão diplomática com Washington pode forçar o investidor a exigir prêmios maiores, postergando o ciclo de redução da taxa Selic. "Para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), esse ambiente tende a aumentar a seletividade. Operações com lastro claro, boa documentação, monitoramento e mecanismos de proteção passam a ser mais valorizadas, porque o investidor busca retorno, mas também quer entender melhor o risco em um cenário de juros altos, inflação persistente e incerteza externa", pontua Araújo.

Cenário da taxa Selic
Atualmente, o Banco Central utiliza a taxa Selic como principal instrumento para convergir a inflação à meta. O indicador está fixado em 14,5% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Na última reunião do colegiado, realizada em abril, houve uma redução de 0,25 ponto percentual por unanimidade, marcando o segundo corte consecutivo. No entanto, o avanço das pressões inflacionárias internas somado ao novo front de incertezas externas deve pautar uma postura mais conservadora da autoridade monetária nas próximas decisões.