Juros elevados podem retirar até 52% do crescimento do PIB em 2026
Descompasso entre a freada rápida no crédito e a inércia da inflação mantém pressão sobre o Banco Central para sustentar taxa restritiva
O aperto monetário no Brasil tem apresentado efeitos imediatos sobre a concessão de crédito, mas ainda enfrenta dificuldades para arrefecer os índices de preços na mesma velocidade. Enquanto famílias reduzem compras parceladas e empresas adiam investimentos ou revisam cronogramas de projetos imobiliários, a inflação segue pressionada por contratos indexados, reajustes salariais e custos logísticos e de energia.
Essa diferença no tempo de resposta ajuda a explicar as revisões recentes do Boletim Focus, que reduziram a projeção de crescimento do PIB para 1,92%, ao mesmo tempo em que elevaram a expectativa de inflação suavizada em 12 meses para 4,53%. Com a taxa Selic projetada em 13,75%, o juro real brasileiro oscila entre 8,3% e 8,8%. Essa magnitude de aperto monetário pode retirar entre 0,7 e 1 ponto percentual da expansão da economia em 2026, quando comparada a uma trajetória de juros neutros.
"O juro já conseguiu frear a quantidade de crédito antes de conseguir frear todos os preços", explica Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco. Segundo o executivo, o impacto se manifesta diretamente no comprometimento da renda das famílias, no custo do capital de giro das companhias e na elevação da taxa mínima de retorno exigida para novos projetos. "Nesse contexto, o crédito precisa ser analisado pela capacidade de pagamento, pelo prazo e pela qualidade das garantias. Estruturas com garantia real, consórcios e reorganização de passivos podem ampliar previsibilidade e permitir que o recurso seja usado de maneira mais planejada", complementa.
Além dos fatores domésticos, o cenário internacional adiciona pressões de custos por meio da volatilidade de commodities, petróleo e fretes sujeitos a choques geopolíticos. A dinâmica reforça a percepção de que a desinflação exigirá paciência do mercado e firmeza da autoridade monetária. "O Focus reforça um quadro de desaceleração com inflação ainda resistente, o que sugere que o problema deixou de ser apenas excesso de demanda e passou a refletir maior inércia em serviços, salários, expectativas e preços administrados", avalia Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. "Isso significa que a perda de ritmo da economia, por si só, não será suficiente para produzir uma desinflação rápida, mantendo o Banco Central pressionado a sustentar juros restritivos por mais tempo."
O espaço para acomodar novas altas de preços até o encerramento do ano é estreito. Após acumular 3,44% de alta até julho, o IPCA dispõe de apenas 1,02% de margem até dezembro para não ultrapassar o teto da meta de 4,5%. Isso exige uma média mensal de avanço de 0,20%. Caso se confirme uma deflação de 0,21% em agosto, a variação média permitida entre setembro e dezembro sobe para 0,31% ao mês. Conforme destaca Lima, o cumprimento dessa trajetória "ainda depende de melhora consistente nos núcleos e serviços".
