Inflação em queda no atacado abre espaço para corte de juros, mas analistas mantêm cautela
Recuo do IGP-10 para -0,30% em junho traz alívio ao mercado, mas patamar elevado da taxa Selic ainda pesa sobre o crédito e os investimentos
A inflação medida pelo Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), registrou uma queda inesperada de 0,30% em junho, revertendo a forte alta de 0,89% observada em maio. O resultado surpreendeu o mercado, que projetava uma aceleração de 0,3% para o período. Esse recuo foi puxado principalmente pelo alívio nos preços ao produtor e no atacado, com destaque para o recuo das commodities.
Embora o número negativo sinalize um fôlego para a economia e reforce o argumento de que há espaço para a redução da taxa básica de juros (Selic), especialistas alertam que um único dado isolado não dita os rumos da política monetária do país. Para o sócio e fundador da Ipê Avaliações, Fábio Murad, o indicador "reforça a leitura de que há espaço para queda da Selic, mas não muda sozinho a decisão do Copom".
Com a Selic atualmente estacionada no elevado patamar de 14,50% ao ano, o custo do dinheiro continua muito alto no país. Analistas apontam que a transmissão dos efeitos dos juros demora a chegar na ponta final. Mesmo com a inflação cedendo na margem, o crédito segue travado e caro, penalizando empresas mais endividadas (alavancadas).
"O crédito continua travado, porque o custo do dinheiro permanece num patamar elevado e a transmissão da política monetária leva tempo para chegar ao tomador final", explica André Matos, CEO da MA7 Capital. Ele complementa que o mercado ainda opera em terreno restritivo e precisa de mais sinais: "Um único dado não muda o tom de um mercado que ainda opera em juros restritivos; o que muda o tom é a consistência."
O comitê do Banco Central deve divulgar nesta quarta-feira (17) a Selic, e é para lá que todos os olhos estão voltados.