Inflação e pressão do petróleo colocam ritmo de corte de juros em xeque no Brasil
Com preços 41% acima da meta, Banco Central avalia desaquecimento da atividade contra riscos de repasse aos custos empresariais para definir próximos passos da Selic
A persistência da inflação em patamares cerca de 41% acima da meta oficial impõe um dilema ao Banco Central: balancear a desaceleração da atividade econômica interna com as recentes pressões internacionais de custos. A eventual tolerância da autoridade monetária a uma convergência mais gradual dos preços pode, no entanto, prolongar o período de juros elevados no país.
Analistas do mercado financeiro avaliam que o comportamento da economia doméstica ainda sustenta a continuidade da flexibilização monetária na reunião de setembro, embora em velocidade mais moderada.
“A desaceleração do IPCA e a perda de força da atividade ainda me parecem ter mais peso para a decisão de setembro do que o petróleo isoladamente, o que mantém espaço para um novo corte gradual da Selic. O barril acima de US$ 90 funciona hoje mais como um limitador da velocidade de flexibilização do que como razão suficiente para interromper o ciclo, porque o Copom não deveria responder ao efeito primário de um choque de oferta com juros excessivamente restritivos. O ponto de inflexão seria uma persistência do petróleo em níveis elevados acompanhada de repasse ao câmbio, combustíveis, fretes e expectativas, contaminando núcleos e serviços. Nesse caso, uma pausa passaria a ser justificável, já que o BC pode admitir uma convergência mais lenta da inflação à meta para evitar aprofundar desnecessariamente a desaceleração da economia, mas não pode sinalizar tolerância estrutural com inflação elevada, sobretudo enquanto as expectativas permanecem desancoradas. Agora, para os ativos, isso reduz a probabilidade de uma queda rápida dos juros, preserva atratividade na renda fixa”, pontua Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
O impacto da alta das commodities se manifesta primeiro na estrutura operacional do setor produtivo antes de ser capturado pelos índices oficiais de preços. A decisão das empresas em repassar ou absorver essas altas definirá a trajetória da política de juros.
“O choque do petróleo chega primeiro ao balanço das empresas e só depois ao índice de inflação. Fretes, estoques e fornecedores pressionam o capital de giro, obrigando cada companhia a escolher entre absorver custos, financiar a diferença ou reajustar preços. A decisão de setembro dependerá dessa escolha coletiva. Se a demanda enfraquecida impedir repasses, o IPCA em desaceleração abrirá espaço para novo corte; se os reajustes avançarem por toda a cadeia, o petróleo poderá interromper o ciclo. A política monetária pode conviver temporariamente com uma inflação mais alta quando os dados mostram que o choque não criou indexação. O desafio é identificar esse movimento antes que ele apareça integralmente nas estatísticas oficiais. Empresas com verticais financeiras próprias conseguem acompanhar pagamentos, estoques, inadimplência e necessidade de crédito em tempo real, usando essas informações para ajustar prazos e capital de giro. Isso torna a resposta financeira mais precisa em um cenário no qual médias macroeconômicas podem esconder diferenças relevantes entre setores”, afirma Leticia Moschioni, sócia da Finscale.
Diante do cenário de incertezas, o Banco Central monitora os dados corporativos e os núcleos inflacionários para calibrar os juros, mantendo o mercado de renda fixa atrativo para os investidores enquanto durar a cautela monetária.
