Ibovespa sofre com petróleo volátil, juros altos e cautela fiscal: veja o que mexe com o mercado
Investidores reavaliam riscos geopolíticos e os impactos inflacionários da nova jornada de trabalho de 40 horas no Brasil
O mercado financeiro iniciou os negócios nesta quinta-feira sob forte volatilidade, com o Ibovespa operando pressionado por uma tríplice combinação de fatores: a instabilidade nos preços do petróleo no exterior, a perspectiva de juros elevados por mais tempo e a crescente cautela doméstica com a inflação e a pauta política.
"A tendência é de continuidade da elevada volatilidade, tanto nos ativos locais quanto no exterior, diante da forte dependência do mercado às próximas leituras de inflação e atividade", destaca a equipe de análise do Daycoval.
No cenário internacional, o otimismo com um possível cessar-fogo no Oriente Médio deu lugar à defensividade. Novos ataques dos Estados Unidos contra instalações militares iranianas próximas ao Estreito de Ormuz reacenderam os temores de um conflito mais amplo e persistente.
Como reflexo imediato, o petróleo do tipo Brent voltou a subir no after market, aproximando-se novamente do patamar de US$ 100 por barril. Para analistas do Banco Daycoval, o mercado global deixou de precificar uma solução rápida para a crise e passou a trabalhar com um choque geopolítico duradouro, cujos efeitos diretos batem na inflação global e nas decisões de política monetária dos bancos centrais.
A instabilidade atinge diretamente as ações da Petrobras, que sofrem com as oscilações bruscas da commodity. Em contrapartida, as bolsas em Nova York (S&P 500 e Nasdaq) operam descoladas da crise, renovando máximas históricas impulsionadas pelo entusiasmo contínuo com empresas de tecnologia e inteligência artificial.
No ambiente doméstico, os investidores dividem as atenções entre a atividade econômica aquecida e os riscos fiscais. A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas e extingue a escala 6x1 adicionou uma nova camada de preocupação ao mercado. O temor central reside no potencial aumento dos custos trabalhistas, perda de produtividade e repasse automático para a inflação de serviços.
No campo político, as pesquisas eleitorais que apontam a manutenção da polarização entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) continuam no radar. Além disso, o Palácio do Planalto tenta articular uma solução de capitalização privada para a crise envolvendo o BRB e o Banco Master, buscando blindar o Tesouro Nacional de um envolvimento direto na operação.
"Superquinta"
A sessão de hoje é classificada como decisiva para a trajetória das taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos. Por aqui, os dados recentes do IPCA-15 confirmaram o desconforto com a inflação qualitativa, especialmente nos núcleos e no setor de serviços.
Com o índice acumulado em 12 meses rodando acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central, o Comitê de Política Monetária (Copom) vê o espaço para qualquer flexibilização praticamente nulo.
A divulgação dos dados de emprego da Pnad e do Caged ganha importância redobrada ao longo do dia, funcionando como o termômetro definitivo sobre a resiliência do mercado de trabalho e seu impacto na carestia. Nos EUA, o foco absoluto se divide entre a revisão do PIB e o PCE, o indicador de inflação preferido do Federal Reserve.
Câmbio e patamar do dólar
Diante do risco geopolítico e da deterioração das expectativas domésticas, o dólar voltou a ganhar força frente ao real, consolidando sua mudança de patamar acima de R$ 5,00. O movimento acende o sinal de alerta sobre a perda de capacidade da moeda brasileira de atuar como uma âncora desinflacionária para o país.