Fim da escala 6x1 pode elevar custo do trabalhador em 7,84% e pressionar inflação de serviços

Mudança na jornada divide analistas entre riscos de alta de preços e novas oportunidades de consumo para o setor

Fim da escala 6x1 pode pressionar inflação de serviços. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Fim da escala 6x1 pode pressionar inflação de serviços. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Victor Gomes

A proposta de redução da jornada de trabalho no modelo 6x1 traz debates que vão além do bem-estar do trabalhador. Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que o custo da mão de obra pode subir 7,84%, gerando preocupações sobre o repasse desses gastos para o consumidor final e possíveis impactos na inflação do setor de serviços. Por outro lado, especialistas também enxergam oportunidades de expansão para segmentos ligados ao lazer e ao entretenimento.

O ponto central da preocupação está no descompasso entre o aumento imediato das despesas e o tempo necessário para a economia responder. De acordo com Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o fim da escala 6x1 pode abrir espaço para o turismo e o entretenimento, mas a conta chega antes dos ganhos. "A estabilidade dos serviços em agosto, mesmo com o crescimento dos segmentos voltados às famílias, mostra que o consumo ainda não sustenta uma expansão generalizada do setor. Na minha avaliação, o fim da escala 6x1 pode beneficiar lazer e turismo, mas o aumento dos custos tende a ser mais imediato do que o crescimento da demanda. O problema é que mais tempo livre não significa mais dinheiro para consumir", avalia Sidney Lima.

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O analista alerta ainda para o abismo entre empresas de portes diferentes e os efeitos na política monetária do país. "Acredito que grandes empresas terão melhores condições de contratar e investir, enquanto pequenos negócios enfrentarão maior pressão sobre suas margens. O risco é transformar parte desse aumento de custos em inflação de serviços, justamente um dos componentes mais resistentes da inflação brasileira. Isso dificultaria a queda dos juros e exigiria maior seletividade nos investimentos, privilegiando empresas com produtividade elevada e capacidade de repassar preços", pontua.

Ganhos de eficiência e novos hábitos de consumo

Apesar dos riscos inflacionários, analistas destacam que a reorganização da rotina dos brasileiros pode impulsionar negócios que souberem se planejar. Leticia Moschioni, sócia da Finscale, enxerga potencial na redistribuição do consumo ao longo da semana, especialmente em restaurantes, viagens e atrações culturais.

"A redução da escala 6x1 pode provocar uma mudança importante na distribuição do consumo, ampliando o movimento em restaurantes, turismo e entretenimento em diferentes dias da semana. O avanço de 2,1% dos serviços às famílias em agosto já indica força nessas atividades, mesmo com o setor agregado praticamente estável. Empresas que combinarem gestão de escalas, pagamentos digitais, fidelização e melhor controle dos recebíveis poderão aproveitar essa demanda com maior eficiência", explica Leticia.

Segundo as projeções da especialista, uma adaptação eficiente pode gerar crescimento de faturamento entre 4% e 6%, superando o aumento estimado de custos, projetado entre 2% e 3,5%. Para Leticia Moschioni, a chave para evitar um repasse inflacionário prejudicial estará na produtividade e na tecnologia. "A expansão favoreceria contratações e investimentos em tecnologia, mas o impacto sobre a inflação dependerá da produtividade. Quanto maior a capacidade de atendimento sem reajustes de preços, menor a pressão sobre a política monetária e maior o espaço para cortes da Selic", conclui.