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El Niño ameaça pressionar inflação e pode levar PIB agropecuário a recuar em 2027

Relatório do Itaú aponta risco de quebra na safra de milho, encarecimento de alimentos e impacto negativo na atividade econômica nos próximos meses

El Niño ameaça pressionar inflação. Foto: CNA/Wenderson Araujo
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Victor Gomes

O fenômeno climático El Niño pode atingir um dos patamares mais intensos das últimas décadas no ciclo 2026/27, trazendo reflexos diretos para a economia brasileira. Conforme aponta o relatório macroeconômico divulgado pelo Itaú, o evento climático "tende a alterar o regime de chuvas nas principais regiões produtoras de commodities do país, criando um ambiente menos favorável para parte da produção agrícola brasileira".

As alterações no clima já começam a pressionar os índices de preços ao consumidor. De acordo com as análises do banco, "o principal canal inflacionário ocorre por meio dos alimentos in natura, especialmente frutas, legumes e hortaliças, cuja oferta é mais sensível às alterações de temperatura e precipitação". Para o encerramento de 2026, o estudo estima que o choque desses alimentos acrescente perto de 0,30 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), efeito já embutido no cenário base da instituição.

No campo produtivo, o milho desponta como o principal foco de preocupação diante de secas e atrasos operacionais. O documento do Itaú reforça que "o milho é a cultura mais vulnerável ao El Niño, especialmente quando o fenômeno provoca atrasos no plantio da soja e reduz a janela ideal para a safrinha". Caso a janela de plantio da segunda safra seja prejudicada por estiagens nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o país poderá vivenciar quebras severas de produtividade. Em contrapartida, as estimativas para a soja indicam impactos mais heterogêneos e estabilidade inicial de volume.

Esse cenário de perdas nas lavouras deve se refletir diretamente no Produto Interno Bruto (PIB) do setor no próximo ano. O banco projeta uma retração de 1,3% para o PIB agropecuário em 2027, assumindo estabilidade na soja e uma quebra de 17% na safra de milho. Além da produção primária, o relatório alerta que o recuo da atividade agrícola gera efeitos indiretos em segmentos como armazenagem, transporte, comércio exterior e geração de renda regional.

Nas contas externas, o banco calcula que um evento severo pode gerar uma redução de cerca de US$ 3 bilhões no superávit comercial agrícola. Contudo, a magnitude final do encarecimento dos grãos e das proteínas em 2027 dependerá da capacidade de recomposição da oferta global, com destaque para a produção da Argentina e dos Estados Unidos.