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Dívida pública e inflação resistente limitam espaço para corte de juros

Persistência do déficit primário e deterioração nas projeções de 2027 elevam a cautela do mercado financeiro em relação ao ritmo da Selic

Cautela do mercado financeiro em relação ao ritmo da Selic. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

A pressão fiscal sobre as contas públicas brasileiras ganhou novos contornos com a dívida líquida atingindo 70,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e o déficit primário persistindo há 26 semanas consecutivas. O quadro de desequilíbrio nas contas do governo soma-se a um cenário de desinflação lenta e atividade econômica em desaceleração, conforme apontam as projeções do Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (17) pelo Banco Central.

Embora as expectativas para os principais indicadores tenham mostrado estabilidade em relação à semana anterior, a deterioração das variáveis para os próximos anos acendeu o sinal de alerta entre analistas. A estimativa do IPCA para 2027 subiu pela primeira vez, alcançando 4,24%, enquanto o crescimento projetado do PIB para o mesmo ano recuou para 1,50% após quatro semanas seguidas de queda. Para 2026, a inflação esperada permaneceu em 5,02%.

Para Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, a dinâmica atual altera o rumo das discussões sobre a flexibilização monetária: “A combinação entre inflação mais resistente e crescimento menor em 2027 muda a qualidade do debate sobre os juros. A projeção do IPCA subiu para 4,24% pela primeira vez, enquanto a estimativa do PIB caiu pela quarta semana seguida, para 1,50%. Isso indica que a perda de força da atividade ainda não foi suficiente para assegurar uma desinflação contínua, porque parte das pressões vem de energia, câmbio, tarifas comerciais e incerteza fiscal, e não apenas do consumo. O PIB mais fraco favorece a continuidade dos cortes da Selic, mas a composição da inflação exige cautela. A previsão de 13,75% para o fim do ano sugere espaço predominante para apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual, especialmente diante de juros internacionais elevados e de uma desinflação global irregular.”

O mercado financeiro prevê que a taxa básica de juros encerre o ano em 13,75%, o que restringe o ciclo de afrouxamento monetário. O diagnóstico predominante é de que as forças que mantêm os preços elevados fogem do alcance exclusivo da política de juros do Banco Central.

Gustavo Assis, CEO da Asset, avalia que o comportamento das projeções delimita com clareza o alcance dos próximos passos da autoridade monetária: “Essa é a sinalização mais objetiva do relatório: o mercado contempla mais um corte, mas não enxerga condições para uma sequência longa neste momento. O IPCA de 2026 ficou em 5,02%, enquanto a inflação de 2027 subiu pela primeira vez, de 4,22% para 4,24%. Ao mesmo tempo, o PIB de 2027 caiu pela quarta semana consecutiva, agora para 1,50%. Essa combinação não significa que a economia esteja aquecida demais. O crescimento perde força pela ação defasada dos juros sobre o consumo, o crédito e o investimento, enquanto a inflação futura continua pressionada por fatores que a Selic controla apenas parcialmente, como energia, petróleo, câmbio, preços administrados e risco fiscal.”

Com o avanço do endividamento público e pressões de custos concentradas em preços administrados e risco fiscal, a condução da política monetária permanece condicionada tanto aos desdobramentos das contas públicas domésticas quanto à persistência dos juros em patamares elevados no cenário internacional.