Desemprego cai para 5,2% no terceiro trimestre e atinge menor taxa para o período desde 2012
Mercado de trabalho aquecido sustenta o consumo das famílias, mas traz desafios para a inflação e reforça a cautela do Banco Central no corte de juros
A taxa de desocupação no Brasil caiu para 5,2% no terceiro trimestre, atingindo o menor patamar já registrado para esse período do ano desde o início da série histórica em 2012. Os números fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada na última sexta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado aponta uma trajetória de queda contínua no mercado de trabalho. No segundo trimestre deste ano, o índice estava em 5,4%. Já na comparação com o terceiro trimestre de 2025, quando a taxa foi de 5,6%, o recuo demonstra o fortalecimento da contratação de mão de obra no país.
Por um lado, a geração de empregos garante renda e mantém o consumo aquecido. Por outro, o baixo número de profissionais disponíveis acende um sinal de alerta sobre a inflação, especialmente no setor de serviços, o que deve limitar a velocidade de redução da taxa básica de juros (Selic) pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O CEO da Asset, Gustavo Assis, avalia que o momento exige prudência da autoridade monetária. “O mercado de trabalho aquecido deve sustentar o consumo em 2027, mas também pode dificultar a desaceleração da inflação de serviços, especialmente em setores nos quais os salários representam parcela relevante dos custos. Com o desemprego em 5,2%, o Copom encontra menos espaço para acelerar os cortes da Selic, principalmente diante do dólar pressionado e das incertezas fiscais após as eleições”, afirmou.
Para Assis, o Copom tem margem para um corte modesto de 0,25 ponto percentual na reunião de novembro, caso as expectativas inflacionárias continuem estáveis. A instituição projeta que 2027 terá inflação entre 4,3% e 4,7%, juros no fim do ano entre 11,75% e 12,25% e avanço de até 2% no Produto Interno Bruto (PIB). Nesse cenário, o executivo recomenda foco na renda fixa: “A estratégia será combinar proteção patrimonial, diversificação e oportunidades em crédito privado, sem depender de uma queda acelerada da Selic”.
Além do impacto nos preços e nos investimentos tradicionais, a escassez de trabalhadores recoloca o debate sobre a eficiência da economia nacional. O CEO da Bossa Invest, Antônio Patrus, pontua que a expansão econômica precisará ser impulsionada por tecnologia para evitar pressões salariais desordenadas.
“A queda do desemprego para 5,2% mostra que o Brasil entra em 2027 com uma base de consumo resiliente, mas também evidencia que o crescimento dependerá cada vez mais de ganhos de produtividade. Com menos trabalhadores disponíveis, a expansão da atividade pode elevar salários e pressionar os preços dos serviços caso a produção não acompanhe a demanda”, destacou Patrus.
O executivo da Bossa Invest também espera cautela do Banco Central, apontando espaço para apenas 0,25 ponto percentual de corte nos juros em novembro, diante do quadro fiscal doméstico e das taxas elevadas nos Estados Unidos. Suas estimativas para 2027 indicam inflação entre 4,2% e 4,6%, Selic entre 11,5% e 12% e crescimento de até 2,3%.
Segundo Patrus, a resposta para equilibrar essa equação está na transformação digital das empresas. “O principal caminho para ampliar esse potencial está na inovação. Startups que desenvolvem inteligência artificial, automatização financeira e soluções logísticas podem aumentar a produtividade sem exigir expansão proporcional da força de trabalho. Para o venture capital, esse ambiente reforça oportunidades de investimento em empresas capazes de reduzir custos, ampliar eficiência e atender a um mercado consumidor que continua ativo”, concluiu.
