Dólar mais baixo pode aliviar IPCA em até 0,5 ponto, mas alta do petróleo limita queda da Selic até 2027

Moeda americana em torno de R$ 5 ajuda a segurar preços e abre espaço para crédito mais barato, embora energia cara mantenha o Banco Central em alerta

Alta do petróleo limita queda da Selic até 2027. Foto: José Cruz/Agência Brasil
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Victor Gomes

O cenário econômico brasileiro vive um momento de forças opostas vindas do exterior. De um lado, o dólar comercial operando perto de R$ 5,02 tem funcionado como uma barreira de proteção contra a alta dos preços, com potencial de reduzir o IPCA em até 0,5 ponto percentual. De outro, a disparada do barril de petróleo Brent para US$ 103,80 pressiona os custos de energia e reduz a margem do Banco Central para acelerar o corte da taxa básica de juros, a Selic, no horizonte até 2027.

Na prática, a moeda americana mais comportada impede que o impacto internacional seja ainda mais pesado no bolso do consumidor e no caixa das empresas. Convertido para a moeda nacional, o barril de petróleo está em torno de R$ 521. Se a taxa de câmbio estivesse nos R$ 5,28 estimados pelas projeções de mercado do Boletim Focus para 2027, o mesmo barril custaria cerca de R$ 548, uma diferença de R$ 27 por barril.

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Para Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, essa diferença ilustra como o câmbio atua como amortecedor, embora não resolva sozinho o problema. "Essa comparação mostra como o câmbio valorizado ajuda a amortecer choques externos, mas não elimina a inflação gerada pela alta da commodity", explica Murad. Ele alerta que, mesmo com a folga gerada pelo câmbio, o encarecimento da energia restringe a atuação da autoridade monetária: "A permanência do dólar nesse patamar pode aliviar a inflação acumulada em até 0,5 ponto percentual; contudo, se o petróleo continuar pressionado, o Banco Central dificilmente terá liberdade para acelerar muito os cortes além do cenário de Selic a 12% no fim de 2027."

Esse ambiente de juros ainda restritivos também dita o ritmo dos investimentos produtivos e do mercado de venture capital no país e na região. Em vez de uma paralisação, os dados mais recentes indicam que o dinheiro continua entrando, mas com exigências bem maiores. No segundo trimestre de 2026, a América Latina recebeu US$ 1,36 bilhão em aportes de venture capital, um crescimento de 47% em um ano. No entanto, cerca de 73% dessa quantia foi concentrada em empresas já consolidadas e em fases avançadas de expansão, enquanto as rodadas em estágios iniciais diminuíram.

De acordo com Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, o momento exige que as empresas mostrem resultados concretos antes de captar recursos. "O ambiente de juros elevados não está impedindo a entrada de capital na América Latina, mas está mudando quem consegue captá-lo", destaca Patrus. Ele pontua que, caso o câmbio continue colaborando para controlar o índice de inflação, o alívio gradual nos juros começará a surtir efeito primeiro no ânimo do investidor privado e, mais adiante, no crédito tradicional. "A partir do segundo semestre de 2027, um custo de capital menor poderá ampliar a competição por startups que já comprovam receitas recorrentes e capacidade de expansão", complementa.

Tanto no mercado financeiro quanto no ecossistema de novos negócios, a leitura predominante é de cautela no curto prazo e expectativa de melhora a partir da segunda metade de 2027. Até lá, a trajetória dos juros dependerá do equilíbrio fino entre a contenção cambial da inflação doméstica e as pressões globais geradas pelo setor de energia.