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Corte da Selic abre ciclo de alívio monetário, mas retomada econômica dependerá de produtividade e disciplina

Com expectativa de redução da taxa básica para 13,75% e sinais de desaceleração no IBC-Br, especialistas apontam que os efeitos na atividade real e no crédito serão graduais ao longo de 2027

Retomada econômica dependerá de produtividade e disciplina. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Retomada econômica dependerá de produtividade e disciplina. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Victor Gomes

A desaceleração da atividade econômica brasileira coloca os holofotes sobre a Super Quarta e reforça a percepção de que a política monetária entra em uma nova fase, embora sem soluções mágicas imediatas. Diante de dados recentes do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que apontou retração pelo segundo mês seguido e deixou um carregamento estatístico negativo de 0,7% para o terceiro trimestre, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve dar início à flexibilização dos juros com um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic de 14% para 13,75% ao ano. No entanto, analistas do mercado financeiro e corporativo advertem que a redução dos juros, de forma isolada, não será suficiente para acelerar o Produto Interno Bruto (PIB), cuja expansão estimada para 2027 gira em torno de 1% a 1,5%.

Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, o desafio estrutural do país ultrapassa o custo financeiro e exige uma transformação interna nos negócios. "O principal desafio da economia brasileira para os próximos anos não será apenas reduzir juros, mas aumentar produtividade", pontua. Ela observa que o impacto dos cortes na taxa básica ocorre com defasagem temporal, incidindo primeiro sobre as curvas de juros e projetos de investimento antes de chegar ao consumo e ao capital de giro. "Com uma economia projetada para crescer cerca de 1% em 2027 e aproximadamente 1,8% em 2028, empresas precisarão criar novas fontes de eficiência e receita. Soluções financeiras integradas, automação e uso estratégico de dados serão fundamentais para aumentar produtividade e capturar oportunidades em um ambiente de crescimento mais moderado", complementa Moschioni.

No segmento de crédito, o diagnóstico é de que a concessão de recursos permanecerá bastante seletiva até que os balanços corporativos absorvam o aperto financeiro acumulado. Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, ressalta que as empresas ainda sentem o peso de um longo período restritivo e que a normalização das condições não será instantânea. "O ciclo atual reforça que qualidade de crédito será o principal fator de diferenciação nos próximos anos", avalia. Segundo ele, o movimento inicial de alívio contempla apenas companhias com menor perfil de risco e receita previsível, estendendo-se ao restante do mercado de modo progressivo durante o ano que vem. "O crescimento econômico dos próximos anos dependerá da capacidade das empresas de gerar caixa e investir com disciplina", enfatiza Da Matta.

Ao analisar o comportamento macroeconômico, Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, pondera que, embora os números do IBC-Br confirmem uma desaceleração evidente, o quadro atual não configura uma recessão, mas sim um avanço brando com heterogeneidade setorial. Ele projeta um crescimento de 1,4% a 1,5% para 2027 e estima 1,8% em 2028, desde que haja progresso na desinflação e responsabilidade fiscal. "Os efeitos da queda da Selic também não chegam imediatamente à economia real. Primeiro aparecem nas novas operações de melhor risco e na curva de financiamento; depois alcançam consumo, capital de giro e investimento. Para empresas mais alavancadas, o spread pode continuar elevado mesmo com a taxa básica caindo", alerta Piran Jr., que prevê uma recuperação mais nítida no mercado de crédito apenas no decorrer do primeiro semestre de 2027.

O ambiente externo adiciona mais um elemento de complexidade às decisões de política monetária e aos planos empresariais, com juros globais ainda em patamares restritivos e custos de commodities sob atenção. Piran Jr. destaca que a Super Quarta pode registrar movimentos divergentes entre as autoridades monetárias, combinando corte de juros no Brasil com possível aperto de 0,25 ponto nos Estados Unidos. "Essa combinação recomenda cautela. Juros americanos mais altos podem pressionar dólar, Treasuries e fluxos para emergentes, enquanto o Banco Central brasileiro precisa equilibrar uma atividade doméstica mais fraca com inflação e expectativas ainda acima do nível desejável", conclui. Diante desse panorama, o consenso entre os especialistas é de que a prudência continuará pautando tanto a magnitude dos cortes da Selic quanto a tomada de risco corporativa.