Copom projeta IPCA 73% acima da meta e mantém postura de cautela com os juros
Cenário externo adverso e incertezas sobre a dívida pública limitam barateamento do crédito mesmo diante de eventual corte na Selic
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgou projeções que colocam o IPCA 73% acima da meta estipulada, justificando a manutenção de uma postura vigilante e cautelosa em relação à taxa básica de juros. A autoridade monetária destacou que o ambiente externo segue cercado de incertezas, impulsionado pela indefinição em torno dos conflitos armados no Oriente Médio e pelas dúvidas sobre a condução da política monetária nas principais economias avançadas. Esse panorama global, marcado por forte volatilidade nos preços de ativos e commodities, impõe cautela redobrada aos países emergentes.
No cenário doméstico, analistas apontam que os efeitos da política monetária restritiva já começam a aparecer na atividade econômica, mas alertam que eventuais reduções na taxa Selic podem não se traduzir de forma automática em crédito acessível para empresas e consumidores. “O Brasil pode entrar em um período de queda da Selic sem entrar imediatamente em um ambiente de capital barato. Essa diferença é fundamental. A ata reconhece que a atividade está perdendo força, mas também relaciona diretamente a incerteza sobre a dívida pública à taxa de juros neutra e ao prêmio exigido nos vencimentos mais longos”, avalia Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.
A perda de fôlego da economia já se reflete nos indicadores mais recentes, sobretudo nos setores mais dependentes de financiamento de longo prazo. Contudo, o prêmio de risco fiscal segue como o principal obstáculo para uma flexibilização financeira ampla.
“A ata reforça a leitura de que os juros elevados finalmente produzem uma desaceleração mais nítida. O PIB do segundo trimestre demonstra a perda de força justamente nas atividades e nos componentes da demanda mais sensíveis ao ciclo, e o crédito livre de prazo mais longo já encolhe. O risco é entrarmos em 2027 com uma Selic menor, mas sem dinheiro verdadeiramente barato. Para a economia voltar a acelerar de forma sustentável, não basta reduzir a taxa básica; é preciso fazer cair também o prêmio de risco e os juros longos”, conclui Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital.
