Consumo das famílias cresce abaixo da renda e crédito mais caro pesa no bolso, diz Itaú

Relatório aponta que, em 2025, a renda disponível avançou 4,7%, mas os gastos com bens e serviços subiram só 1,3%; para 2026, a projeção é de alta de 1,4% no consumo

Consumo das famílias cresce abaixo da renda, segundo Itaú. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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Poder da Capital

O consumo das famílias brasileiras deve continuar andando atrás da renda em 2026, segundo relatório Macro Visão do Itaú Unibanco. O banco estima avanço de 1,4% para o consumo neste ano, diante de juros ainda restritivos e de um mercado de crédito mais seletivo, embora a renda deva seguir ajudando a sustentar a atividade.

Em 2025, a diferença entre renda e consumo ficou ainda mais evidente. A Renda Nacional Bruta Disponível das Famílias restrita (RNDBF) cresceu 4,7%, enquanto a despesa com bens e serviços aumentou apenas 1,3%.

O estudo atribui parte desse descolamento à piora das condições financeiras. Segundo o relatório, a desaceleração das concessões para pessoas físicas e o aumento do comprometimento da renda com juros e amortização reduziram o espaço para consumo, especialmente em bens mais sensíveis ao crédito.

A análise econométrica do Itaú aponta que uma queda exógena (relacionada a fatores externos) de 1 ponto percentual nas concessões de crédito reduz o consumo em cerca de 0,8 ponto percentual. O banco destaca ainda que o impacto aparece com mais força cerca de seis meses após o choque.

Comprometimento da renda
Outro sinal de pressão vem do comprometimento de renda das famílias, que atingiu 29,7% em fevereiro de 2026, nível recorde na série histórica do banco. Mesmo assim, o relatório observa que, ao excluir o cartão de crédito parcelado sem juros, o indicador cai para perto de 20%, ainda elevado, mas abaixo do pico de 2011.

O Itaú também ressalta que o mercado de trabalho segue amortecendo o efeito do crédito caro. Como o desemprego permanece em patamar baixo, o banco avalia que o impacto do comprometimento de renda sobre o consumo tende a ser mais limitado do que seria em um cenário de emprego mais fraco.

Consumo por setores
Nos dados setoriais, o relatório identifica um comportamento desigual. Categorias mais dependentes de crédito, como bens duráveis e semiduráveis, mostraram desempenho mais fraco, enquanto gastos mais ligados à renda, como alimentação, farmácia, vestuário e serviços, seguiram relativamente mais resilientes.

Na leitura do Itaú, o quadro geral indica que o consumo continuará crescendo abaixo da renda, mas sem sinal de deterioração abrupta. A projeção do banco para a renda em 2026 é de alta real de 3,6%, o que deve ajudar a sustentar o consumo e conter a inadimplência.