Cenário global volátil e inflação em aceleração no Brasil mantêm Copom cauteloso
Banqueiros esperam novos cortes, mas alertam para risco de pausa se expectativas piorarem
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu na reunião da última quarta-feira (17) reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Taxa Selic para 14,25% ao ano. A decisão veio num contexto internacional marcado por elevada incerteza, decorrente da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e pelos efeitos já observados desses choques nos preços de ativos e commodities, que pressionam países emergentes a adotarem postura cautelosa.
No plano doméstico, o conjunto de indicadores divulgados mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, com setores mais cíclicos reassumindo papel relevante, enquanto o mercado de trabalho apresenta sinais de resiliência. Ao mesmo tempo, as divulgações mais recentes apontam que a inflação cheia e as medidas subjacentes ganharam ritmo, afastando‑se da meta e superando o limite superior na última leitura — elemento que tem aumentado as incertezas sobre o caminho das taxas.
Em sua explicação, o Banco Central optou por justificar o corte com base na ideia de que o horizonte relevante para a próxima reunião do Copom será o primeiro trimestre de 2028, e não mais o quarto trimestre de 2027. Segundo a autoridade, caso a taxa fosse calibrada já no nível necessário para trazer a inflação à meta ao final de 2027, isso poderia resultar em índice abaixo da meta no início de 2028.
Especialistas do mercado reagiram ao comunicado ressaltando o equilíbrio entre risco e estímulo. “Em função do nível elevado de incerteza do cenário econômico, a principal dúvida para a decisão de hoje estava na comunicação do BC: qual seria a mensagem apresentada no comunicado? O BC manteve a decisão aberta para o próximo encontro. Assim, se o BC colocasse a taxa básica no nível necessário para trazer a inflação para a meta no final de 2027, ela já estaria abaixo da meta no início de 2028. Nosso cenário base contempla o BC parando no nível de 14,00% e voltando a cortar no final de 2026, com a taxa Selic terminando o ano em 13,50% a.a.,” afirmou o economista‑chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano.
Para o economista‑chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, o Comitê apresentou um diagnóstico correto ao mencionar incertezas externas e a força da atividade no primeiro trimestre, puxada por componentes cíclicos. “O Comitê faz um diagnóstico correto, cita o cenário externo com as suas incertezas, avalia a atividade econômica no primeiro trimestre como forte, devido a itens cíclicos, que é o que a gente realmente viu acontecer, pontua que a inflação corrente piorou, e quando a gente olha o modelo do Banco Central, as projeções dele ficaram um pouco acima daquilo que imaginávamos. Achamos que viria com 3,5 para final de 2027, veio 3,3 e também teve uma Copom em um item extra no balanço de riscos e uma atualização no choque de energia e da parte de El Ninõ, que também vão em direção um pouco pior,” disse Cardoso.
A comunicação do Copom, que deixou a porta aberta para futuras ações, será acompanhada com atenção pelos agentes financeiros, em especial a evolução das expectativas de inflação registradas na pesquisa Focus. Caso as projeções deixem de piorar, analistas avaliam que o banco central poderá prosseguir com o ciclo de cortes; caso contrário, o processo de redução da Selic poderá ser interrompido.