Cenário global volátil e inflação em aceleração no Brasil mantêm Copom cauteloso

Banqueiros esperam novos cortes, mas alertam para risco de pausa se expectativas piorarem

Banqueiros esperam novos cortes, mas alertam para risco de pausa se expectativas piorarem. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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Victor Gomes

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu na reunião da última quarta-feira (17) reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, levando a Taxa Selic para 14,25% ao ano. A decisão veio num contexto internacional marcado por elevada incerteza, decorrente da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e pelos efeitos já observados desses choques nos preços de ativos e commodities, que pressionam países emergentes a adotarem postura cautelosa.

No plano doméstico, o conjunto de indicadores divulgados mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, com setores mais cíclicos reassumindo papel relevante, enquanto o mercado de trabalho apresenta sinais de resiliência. Ao mesmo tempo, as divulgações mais recentes apontam que a inflação cheia e as medidas subjacentes ganharam ritmo, afastando‑se da meta e superando o limite superior na última leitura — elemento que tem aumentado as incertezas sobre o caminho das taxas.

Em sua explicação, o Banco Central optou por justificar o corte com base na ideia de que o horizonte relevante para a próxima reunião do Copom será o primeiro trimestre de 2028, e não mais o quarto trimestre de 2027. Segundo a autoridade, caso a taxa fosse calibrada já no nível necessário para trazer a inflação à meta ao final de 2027, isso poderia resultar em índice abaixo da meta no início de 2028.

Especialistas do mercado reagiram ao comunicado ressaltando o equilíbrio entre risco e estímulo. “Em função do nível elevado de incerteza do cenário econômico, a principal dúvida para a decisão de hoje estava na comunicação do BC: qual seria a mensagem apresentada no comunicado? O BC manteve a decisão aberta para o próximo encontro. Assim, se o BC colocasse a taxa básica no nível necessário para trazer a inflação para a meta no final de 2027, ela já estaria abaixo da meta no início de 2028. Nosso cenário base contempla o BC parando no nível de 14,00% e voltando a cortar no final de 2026, com a taxa Selic terminando o ano em 13,50% a.a.,” afirmou o economista‑chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano.

Para o economista‑chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, o Comitê apresentou um diagnóstico correto ao mencionar incertezas externas e a força da atividade no primeiro trimestre, puxada por componentes cíclicos. “O Comitê faz um diagnóstico correto, cita o cenário externo com as suas incertezas, avalia a atividade econômica no primeiro trimestre como forte, devido a itens cíclicos, que é o que a gente realmente viu acontecer, pontua que a inflação corrente piorou, e quando a gente olha o modelo do Banco Central, as projeções dele ficaram um pouco acima daquilo que imaginávamos. Achamos que viria com 3,5 para final de 2027, veio 3,3 e também teve uma Copom em um item extra no balanço de riscos e uma atualização no choque de energia e da parte de El Ninõ, que também vão em direção um pouco pior,” disse Cardoso.

A comunicação do Copom, que deixou a porta aberta para futuras ações, será acompanhada com atenção pelos agentes financeiros, em especial a evolução das expectativas de inflação registradas na pesquisa Focus. Caso as projeções deixem de piorar, analistas avaliam que o banco central poderá prosseguir com o ciclo de cortes; caso contrário, o processo de redução da Selic poderá ser interrompido.