Brasil deve sentir efeitos da crise internacional mesmo sendo produtor de petróleo, aponta IFI

Relatório indica impacto em inflação, juros e crescimento econômico, apesar de ganhos fiscais com alta do petróleo

IFI analisa impactos fiscais da guerra com Irã. Foto: Petrobras/Divulgação
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Poder da Capital

O Brasil deverá enfrentar impactos relevantes da atual crise internacional, mesmo sendo um importante produtor de petróleo e mantendo fundamentos externos considerados sólidos. A avaliação consta no Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de abril, divulgado pela Instituição Fiscal Independente do Senado Federal (IFI).

Segundo o documento, os reflexos do conflito no Oriente Médio — envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — tendem a atingir variáveis macroeconômicas como inflação, taxa de juros, comércio exterior e ritmo de crescimento da economia brasileira ao longo de 2026 e também em 2027.

O relatório destaca que a escalada do conflito, que já se estende por cerca de seis semanas e envolve países estratégicos da região como Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Iraque, Kuwait e Líbano, provocou forte instabilidade nos mercados globais. Um dos principais efeitos foi a disparada do preço do petróleo Brent, que saltou de US$ 71 para mais de US$ 100 por barril.

Para os diretores da IFI, Marcus Pestana e Alexandre Andrade, esse movimento acendeu um alerta global. “O aumento do petróleo pode desencadear inflação em escala mundial, retração econômica, desorganização das cadeias produtivas e até uma crise energética persistente”, afirmam.

Outro fator de preocupação é a tensão no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Eventuais restrições no tráfego marítimo na região podem agravar ainda mais o cenário econômico internacional.

Apesar dos riscos, o Brasil também poderá registrar efeitos positivos no curto prazo. O relatório aponta aumento na arrecadação pública, impulsionado por royalties do petróleo, maior lucro da Petrobras e receitas provenientes do sistema de partilha da produção. Estados e municípios também devem se beneficiar desse incremento.

Por outro lado, o governo federal já anunciou medidas para mitigar os impactos da alta dos combustíveis, como subsídios ao diesel e ao gás de cozinha (GLP), além de incentivos fiscais e linhas de crédito para setores afetados, como o aéreo. Essas ações, no entanto, pressionam as contas públicas.

A IFI também chama atenção para efeitos fiscais futuros. A aceleração da inflação deve elevar despesas obrigatórias, especialmente com o reajuste do salário mínimo a partir de 2027. Além disso, o cenário pode frear a queda da taxa Selic, aumentando os gastos com juros da dívida pública.

O relatório ressalta ainda que o ambiente econômico permanece altamente volátil, com projeções sujeitas a mudanças rápidas conforme a evolução do conflito. A IFI informou que novas estimativas serão divulgadas em junho, com atualização dos cenários macroeconômicos e fiscais de médio prazo.