Bets: o custo silencioso que consome a aposentadoria das famílias
Ubiratãn Dias, advogado previdenciarista, analisa como as apostas esportivas podem comprometer o orçamento das famílias e o planejamento para a aposentadoria
O avanço das apostas esportivas no Brasil passou a produzir impactos que vão além do entretenimento. O dinheiro destinado às bets pode reduzir a capacidade de consumo, aumentar o endividamento e comprometer a formação de reservas financeiras para o futuro. Dados da 3ª edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comsefaz em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado (Cicef), mostram que, em 2025, as transações via Pix relacionadas às bets chegaram a R$ 350,97 bilhões. O saldo líquido das perdas das famílias foi de R$ 62,5 bilhões, equivalente a aproximadamente 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das famílias brasileiras.
Para Ubiratãn Dias, advogado previdenciarista, o impacto não se limita à perda imediata de dinheiro. “Quando uma parcela da renda familiar é direcionada de forma recorrente para as apostas, esse dinheiro deixa de ser utilizado para quitar dívidas, formar uma reserva de emergência ou construir patrimônio. O impacto pode alcançar diretamente o planejamento financeiro de longo prazo.”
O cenário preocupa ainda mais diante do endividamento das famílias. Segundo o levantamento, cerca de 80% dos lares brasileiros encerraram 2025 endividados, em um ambiente de juros elevados e maior comprometimento da renda. Nesse contexto, recursos destinados às apostas deixam de ser utilizados para despesas essenciais, redução de dívidas ou formação de reservas.
“Em uma família que já está endividada, cada real tem uma função. Quando o recurso é direcionado para uma atividade de alto risco, pode surgir um ciclo de perdas e aumento do endividamento. O problema se agrava quando a pessoa utiliza cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos para tentar recuperar o dinheiro perdido.”
Além do impacto no orçamento atual, o especialista chama atenção para as consequências na aposentadoria. A segurança financeira na velhice é construída ao longo de décadas, por meio das contribuições previdenciárias e também da formação de reservas e patrimônio.
“A aposentadoria não começa quando a pessoa para de trabalhar. Ela é construída durante toda a vida profissional. Quanto mais cedo o trabalhador consegue preservar parte da renda e transformá-la em patrimônio, maior tende a ser sua segurança no futuro. As apostas fazem justamente o movimento contrário.”
O avanço das bets também reforça a necessidade de ampliar o debate sobre educação financeira, proteção do consumidor e prevenção ao superendividamento. Para Ubiratãn Dias, o problema precisa ser analisado não apenas como uma escolha individual, mas também pelos impactos que provoca na capacidade de poupança das famílias.
“A cultura das apostas vende a ideia do ganho rápido, enquanto o planejamento financeiro exige disciplina e visão de longo prazo. A aposentadoria não pode ser tratada como um jogo de azar. Preservar a renda hoje é o que permite construir segurança para o futuro.”
