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Apostas online no Brasil: relatório revela como a prática substitui ferramentas financeiras e expõe riscos de endividamento

Levantamento da Anbima aponta que 17% da população economicamente ativa aposta, com uso frequente de jargões de investimento, dependência de ganhos para fechar as contas e barreiras para interromper o hábito

Levantamento da Anbima aponta que 17% da população economicamente ativa aposta. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
Levantamento da Anbima aponta que 17% da população economicamente ativa aposta. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil
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Victor Gomes


As plataformas de apostas online deixaram de ser apenas canais de entretenimento e passaram a operar como alternativas informais para complementar renda e lidar com despesas imediatas no Brasil. Os dados constam no relatório "Aposta online no Brasil: perfis de uso, jornadas e padrões de comportamento", produzido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com a consultoria Kyvo.

O documento analisa os impactos comportamentais e econômicos da atividade, que atinge cerca de 17% da população economicamente ativa do país, com base em dados de 2025 compilados na 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro. A adesão é predominante entre os mais jovens: 27% das pessoas da Geração Z e 22% dos Millennials apostam. Do total de apostadores, 37% gastam R$ 100 ou mais por mês com palpites e jogos virtuais. O estudo identifica ainda que 11% do público apresenta alta propensão ao vício, grupo concentrado em homens jovens e pertencentes à classe C.

Apropriação de linguagem 
A pesquisa indica que 39% das pessoas apostam com o objetivo de obter retorno financeiro rápido para cobrir necessidades imediatas, enquanto 32% apontam a diversão como motivo e 20% declaram acreditar que a aposta funciona como uma modalidade de investimento.
Essa confusão entre jogo e aplicação de recursos é reforçada pelo vocabulário utilizado pelos próprios usuários. Expressões típicas do mercado financeiro, como "gestão de banca", "análise de risco", "estatística" e "rendimento", foram incorporadas ao cotidiano das apostas esportivas e dos cassinos digitais. 

A adoção desses termos gera uma falsa percepção de controle técnico sobre dinâmicas que dependem fundamentalmente da sorte ou de probabilidades matemáticas desfavoráveis aos participantes.
Divisão em quatro perfis de comportamento
Com base em relatos qualitativos de usuários e ex-usuários, a Anbima categorizou os apostadores em quatro padrões, condicionados pelo grau de estabilidade financeira e pela finalidade dada ao dinheiro:

- Adepto da fortuna: Associado a situações de vulnerabilidade social e renda imprevisível. O usuário aposta na sorte como única perspectiva de alteração econômica a curto prazo, recorrendo com frequência a cassinos digitais. Os valores eventualmente ganhos são direcionados imediatamente ao pagamento de contas vencidas ou consumo urgente de sobrevivência.

- Matador de leões: Indivíduo submetido a forte aperto orçamentário que recorre às apostas como tentativa de cobrir déficits e emergências financeiras. Alterna decisões de controle com impulsos provocados pela necessidade de recuperar perdas.

- Expert da realidade: Possui renda com certo grau de regularidade, mas sem perspectiva de crescimento profissional. Trata a aposta como um método disciplinado para obter renda complementar, concentrando-se em apostas esportivas e utilizando ferramentas de cálculo e metas de rendimento.

- Caçador de emoções: Enquadra-se nas camadas de maior estabilidade econômica. Encara o valor apostado como custo de lazer esportivo e mantém os montantes separados das despesas essenciais do domicílio.

Impactos por classe social e gênero
O levantamento ressalta que o significado da aposta muda radicalmente segundo a faixa de renda. Entre as classes A e B, a atividade é justificada por interesses técnicos e entretenimento. Na classe C, mesclam-se a busca por lazer e a pressão por receita adicional. Já nas classes D e E, a aposta se consolida como recurso de emergência diante da falta de opções de crédito formal.

No recorte de gênero, homens costumam socializar a prática e tratá-la como hobby analítico. Entre as mulheres de classes populares, o padrão é o oposto: o uso costuma ser solitário, ocultado da família e atrelado à sobrecarga de trabalho e de cuidados com o lar. Nesse grupo, os jogos contínuos servem como alívio temporário de tensões, gerando frequentes sentimentos de culpa e dificuldades em reconhecer a própria dependência.

A Anbima informou que defende que os programas de educação e as políticas públicas precisam levar em conta o contexto de escassez de recursos, o apelo psicológico dos designs digitais e a urgência material dos cidadãos. O órgão enfatiza a necessidade de restabelecer fronteiras rígidas entre instrumentos formais de investimento (que exigem horizonte temporal e proteção patrimonial) e apostas de quota fixa, cujas regras estatísticas implicam perda de capital no longo prazo.