Alívio nos juros longos abre espaço para crédito mais barato e atrai capital para empresas
Especialistas apontam que queda nas taxas de longo prazo pode chegar a quase 20% até 2027 caso o governo confirme compromisso com as contas públicas
O desfecho do primeiro turno das eleições trouxe um alívio imediato para os contratos de juros futuros de longo prazo, com quedas que superaram 1 ponto percentual logo após as votações. Esse movimento reduz o custo do dinheiro ao longo do tempo e melhora o ambiente tanto para a captação de recursos quanto para o investimento produtivo no Brasil. Se o novo cenário político for acompanhado por medidas concretas de equilíbrio fiscal, analistas estimam que as taxas longas possam recuar até 19,7%, saindo do patamar recente de 12,7% para níveis próximos de 10,2% a 11,5% até o fim de 2027.
Na prática, a taxa de juros de longo prazo reflete a confiança do mercado na solvência do país nos próximos anos. Quando a incerteza diminui, cai o chamado prêmio de risco, o que barateia o financiamento de projetos antes mesmo de o Banco Central anunciar eventuais cortes na Selic. Para o diretor da Bossa Invest, Bruno von Medem, essa dinâmica mexe diretamente na conta de quem decide investir no setor produtivo. "O resultado eleitoral alterou uma variável que costuma ser pouco visível fora do mercado financeiro, mas que pesa diretamente na economia real: a taxa usada para trazer lucros futuros a valor presente. A queda superior a 1 ponto percentual em trechos da curva em apenas um dia aumenta o valor presente de empresas cujo crescimento está concentrado nos próximos anos", explica.
Segundo o executivo, uma curva longa caindo para a faixa entre 10,9% e 11,5% altera materialmente a relação entre risco e retorno no país. No setor de startups e capital de risco, isso favorece o valuation, amplia a liquidez para novas rodadas de investimento e encoraja aportes de longo prazo. Contudo, Medem alerta que o cenário global ainda exige prudência: "Isso não significa uma volta automática ao ciclo de capital abundante. Nos Estados Unidos, os juros de dez anos chegaram a 5,34%, enquanto o mercado global continua exigindo retorno elevado. Por isso, startups com receita, eficiência de capital e capacidade de escalar tendem a continuar sendo favorecidas".
Na ponta do crédito corporativo, o impacto tende a ser mais veloz por meio do mercado de capitais do que pelos empréstimos bancários tradicionais. Títulos de dívida privada, como debêntures e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), ajustam suas taxas com maior rapidez ao novo humor dos investidores. "Para as empresas, a parte mais importante do movimento dos juros não é o número da Selic isoladamente, mas o custo pelo qual o capital consegue ser captado, estruturado e transferido ao cliente. A queda de mais de 100 pontos base em vencimentos longos abre uma janela para repricing de debêntures, FIDCs, securitizações e estruturas de financiamento", afirma Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
A especialista projeta que a taxa longa pode convergir para a faixa de 11,3% a 11,7% até o fim de 2027 com a consolidação da confiança fiscal, permitindo inclusive que companhias reduzam custos de crédito aos seus clientes finais e lancem novos produtos financeiros. Moschioni ressalta, no entanto, que os efeitos na economia real não são imediatos: "Mercado de capitais e funding podem reagir em poucos meses, mas capital de giro, investimento e consumo costumam responder ao longo de dois ou três trimestres. O principal risco é uma melhora de preço sem melhora de fundamento. Se dívida pública, inflação implícita e câmbio voltarem a subir juntos, será um sinal de que a compressão de prêmio eleitoral foi longe demais".
