Ajuste fiscal pós-votações pode abrir caminho para queda da Selic rumo a 10% até 2028
Especialistas apontam que corte de despesas ineficientes e avanço da produtividade são essenciais para baratear o crédito sem travar a atividade econômica
O avanço das pautas fiscais no Congresso Nacional coloca no centro do debate a trajetória da taxa básica de juros no Brasil. Caso as medidas aprovadas consigam entregar um reequilíbrio sustentável das contas públicas, analistas projetam que a taxa Selic pode cair do patamar de 11,75% ao ano para níveis próximos a 10% até 2028. O desafio central, contudo, está na dosagem e na qualidade dessas reformas para evitar que o remédio fiscal aprofunde a perda de fôlego da economia.
Para o analista Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, o país necessita de uma estratégia equilibrada que foque no corte de despesas e privilégios, em vez de elevar a carga tributária. "O Brasil precisa de um ajuste fiscal consistente, mas gradual, priorizando a redução de gastos ineficientes e privilégios tributários, sem comprometer investimentos. Um ajuste muito agressivo, com os juros ainda elevados, poderia aprofundar a desaceleração econômica. Se o governo conseguir transmitir credibilidade fiscal, a redução do risco-país, da inflação esperada e dos juros poderá estimular novamente o crédito, o consumo e os investimentos. Nesse cenário, vejo potencial de ganho adicional de 0,3 a 0,5 ponto percentual no crescimento anual até 2030, compensando a perda inicial entre 2029 e 2030. O principal erro seria concentrar o ajuste no aumento de impostos, penalizando ainda mais a atividade. O mercado responderá melhor a um ajuste estrutural, capaz de controlar a dívida pública e permitir juros menores de maneira sustentável", avalia Sidney Lima.
Além da disciplina nas contas, o debate sobre o ritmo da atividade ganha relevância com a perspectiva de arrefecimento do Produto Interno Bruto (PIB). Projeções da agência de classificação de risco Fitch indicam que a economia brasileira deve passar de uma expansão de 1,9% em 2026 para 1,4% em 2027, descolando-se da média global estimada em 3,4% pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo estimativas da Fitch, um esforço fiscal estrutural adicional equivalente a 0,6 ponto percentual do PIB até 2028 abriria espaço para baratear os juros em até 0,7 ponto percentual além do previsto no cenário original. Ainda assim, a transmissão desse alívio para a economia real dependerá de ganhos reais de produtividade e de maior dinamismo no setor financeiro, como destaca Letícia Moschioni, sócia da Finscale. "O ajuste fiscal de 2027 precisa resolver um problema que vai além das contas públicas: a baixa capacidade da economia brasileira de transformar recursos em produtividade. A Fitch projeta desaceleração do PIB de 1,9% em 2026 para 1,4% em 2027, enquanto a economia mundial deverá crescer 3,4% no próximo ano, segundo o FMI. A instituição estima que um ajuste estrutural adicional de 0,6 ponto percentual do PIB até 2028 permitiria reduzir os juros em até 0,7 ponto percentual além do cenário-base. Entretanto, o benefício sobre o crescimento não será automático, nem existe um prazo definido para compensar a desaceleração inicial até 2030. Para acelerar a recuperação, será necessário melhorar a circulação do crédito, reduzir custos financeiros e ampliar investimentos produtivos. Nesse contexto, as finanças integradas permitem que empresas incorporem pagamentos, crédito e contas digitais às operações, criando novas receitas e aumentando a eficiência financeira", pontua Letícia Moschioni.
O consenso entre os especialistas é que a consolidação fiscal precisa vir acompanhada de estímulo ao investimento privado e barateamento do crédito para que a transição rumo a juros menores se converta em emprego e crescimento sustentado nos próximos anos.
