81,1% do PIB: Custo da dívida pública muda a régua do crédito e acende alerta no Brasil

Com pior desempenho fiscal para o mês de maio desde 2024, avanço do endividamento pressiona o setor privado e eleva o custo de capital para empresas e famílias

Custo da dívida pública muda a régua do crédito. Foto: José Cruz/Agência Brasil
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Poder da Capital

As contas do Governo Central registraram um déficit primário de R$ 53,3 bilhões em maio de 2026, conforme dados oficiais divulgados pelo Tesouro Nacional nesta segunda-feira (29). O resultado, que engloba as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central, representa o pior desempenho para o mês desde 2024, em valores corrigidos pela inflação. Em comparação com maio de 2025, quando o saldo negativo foi de R$ 40,2 bilhões, a deterioração das contas reflete um avanço das despesas públicas em ritmo superior ao da arrecadação federal.

O déficit primário ocorre quando as despesas governamentais superam as receitas, desconsiderando os gastos com o pagamento dos juros da dívida pública. O persistente descompasso fiscal impulsionou a dívida bruta do governo brasileiro para a marca de 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior patamar registrado desde meados de 2021.

Analistas apontam que a trajetória ascendente do endividamento é o principal ponto de atenção para os agentes econômicos. Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, destaca a urgência de uma sinalização clara rumo à sustentabilidade fiscal. Conforme explica o executivo:

"A dívida bruta do governo brasileiro atingiu 81,1% do PIB, reforçando a importância do equilíbrio fiscal. Mais do que o nível da dívida, o mercado observa sua trajetória e a capacidade do país de estabilizá-la ao longo do tempo."

Os reflexos do desequilíbrio das contas públicas extrapolam os gabinetes em Brasília e produzem um impacto direto e imediato na atividade econômica. A alta da dívida líquida para 67,9% evidencia que o setor público tem absorvido uma fatia significativamente maior da poupança disponível no país. A necessidade do governo de emitir mais títulos e pagar juros elevados para se financiar atua como uma referência elevada de retorno para o mercado financeiro, tornando bancos, fundos e fintechs muito mais seletivos.

Essa mudança estrutural na oferta de capital altera drasticamente as condições de financiamento na chamada "economia real". Alberto Friggi, CEO da Friggi&Secco, detalha como esse cenário restritivo reconfigura o acesso a recursos financeiros no mercado nacional:

“Na economia real, uma dívida bruta de 81,1% do PIB aparece primeiro no crédito. Para quem busca capital de giro, home equity, crédito para construção, consórcio estruturado ou financiamento ligado ao agronegócio, o efeito tende a vir em forma de taxas maiores, prazos mais apertados e exigência mais rígida de garantias. Quando o governo precisa pagar mais para se financiar, ele cria uma referência elevada de retorno para o mercado, e bancos, fundos e fintechs passam a selecionar melhor quem recebe crédito.”

Segundo Friggi, esse encarecimento afeta diretamente empresas que necessitam recompor o caixa, produtores rurais em fase de expansão, construtoras dependentes de recursos para obras e famílias que recorrem ao patrimônio imobiliário para reorganizar suas dívidas. Em sua análise, o atual momento exige sofisticação técnica: “Nesse ambiente, crédito não pode ser tratado como produto de prateleira. A operação precisa ser desenhada de acordo com prazo, garantia, finalidade e capacidade real de pagamento. O Brasil ainda tem demanda e bons projetos, mas crescer com dívida pública alta exige estrutura financeira mais inteligente”.

Além da pressão sobre as taxas de juros, o avanço continuado do endividamento deteriora o horizonte de planejamento macroeconômico. A perspectiva de que o indicador continue em rota de crescimento nos próximos anos — alimentado em grande medida pelo custo financeiro da própria conta de juros — eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores e abala a previsibilidade do país.

André Matos, CEO da MA7 Negócios, alerta para os desdobramentos de longo prazo desse quadro fiscal sobre a confiança do mercado e a capacidade de investimento do próprio Estado:

“Olha, uma dívida bruta em 81,1% do PIB, o maior nível desde meados de 2021, é sim um sinal de alerta, porque vem subindo e deve continuar crescendo nos próximos anos, puxada principalmente pela conta de juros, que está muito alta. E isso pesa sobre toda a economia, porque encarece o crédito para empresas e famílias, reduz o espaço do governo para investir e abala a confiança, já que, quanto menos o mercado acredita no equilíbrio das contas públicas, mais caro fica financiar o país e mais o investidor hesita em apostar no longo prazo.”

A convergência entre o pior desempenho fiscal em dois anos e o encarecimento do crédito privado coloca o país diante de um desafio duplo: desenhar estratégias eficazes de consolidação fiscal para estabilizar a trajetória da dívida e, simultaneamente, viabilizar estruturas financeiras eficientes para que o setor produtivo e as famílias consigam navegar em um ambiente de capital sensivelmente mais escasso e oneroso.